ROBERTO SCHULTZ - Advogado de Agências de Propaganda. Ex-escritor de ficção e ex-professor em Faculdades de Comunicação. Amante do cinema, de preferência aquele que esteja fora do circuito comercial.
NO CAMINHO: FILME DA BÓSNIA, COM A VISÃO DE UMA MULHER SOBRE O PÓS-GUERRA E SOBRE A CONDIÇÃO FEMININA NAQUELE PAÍS EMANCIPADO DA IUGOSLÁVIA DEPOIS DE VÁRIOS CONFLITOS. (filme em DVD)
Vi o filme abaixo comentado. Como estou sem tempo, copio comentários alheios. O filme é bom e merece ser visto, sobretudo pelo papel da mulher numa cultura predominantemente muçulmana. O destaque que justifica vermos o filme é a protagonista, a atriz ZRINKA CVITESIC, com personalidade marcante (e bonita). Nascida na Croácia, mas fazendo o papel de uma bósnia. O que aumenta o interesse, sobretudo pelos conflitos existentes entre os países que restaram da divisão da Iugoslávia (entre eles a Bósnia e a Croácia).
"O outro filme dirigido por cineasta mulher é da Bósnia e Herzegovina. Na Putu (No Caminho), de Jasmila Zbanic (ganhadora do Urso de Ouro 2006 por Em Segredo). Como no argentino, há uma libertação por parte de uma mulher, mas aqui de fantasmas da história recente e sangrenta do país, tema também visitado no filme anterior.
A aeromoça Luna (Zrinka Cvitesic) vê seu companheiro desempregado se converter a uma forma radical de islamismo, levando-o a mudar completamente como pessoa. É o choque entre a Bósnia européia globalizada pós-conflitos dos anos 90 e as raízes dessa mesma cultura, que não parece ir embora. Nos dois filmes, ações afirmativas políticas de mulheres que decidem seus próprios caminhos. No filme de Zbanic, tudo me parece tão cansado e auto-afirmativo."
FILME CANADENSE DE 2008 QUE É UMA SOBREMESA DE SENSIBILIDADE NO MEIO DESSA ENXURRADA DE FILMES BRUTOS E SEM SABOR: MAMÃE FOI AO CABELEIREIRO (filme em DVD).
O filme canadense MAMÃE FOI AO CABELEIREIRO (em francês, língua também falada no Canadá, Maman est chez le coiffeur), que é de 2008, é de uma sensibilidade aguda. Sobretudo por conta da inocência que a vida adulta destrói nas crianças e nos adolescentes. Em todos nós.
O filme é contado pela visão da adolescente Elise, filha mais velha de um casal que tem três filhos. É uma família feliz até a mãe descobrir que o pai, um médico, é gay e anda saindo demais com um amigo com quem joga golfe e vai pescar.
Considerando o contexto da época, que é o ano de 1966, a mulher "pira" e resolve ir embora, abandonando marido e filhos. Deixa o Canadá e vai ser jornalista em Londres. Daí o título do filme. As crianças sempre usam isso como desculpa, a cada vez que alguém lhes procura a mãe, dizem: "mamãe foi ao cabeleireiro", o que é uma desculpa e também uma defesa nas suas inocências.
O pai também não compreende a sua própria condição sexual e não aceita que a mulher lhe abandone. Provavelmente se acha um "doente" na época. Mas, justiça seja feita, segue cuidando dos filhos com o amor e com o afeto que aos pais (varão, homem) cabe sentir.
A filha mais velha (que é quem "entrega" a condição do pai para a mãe); certamente o personagem principal do filme, faz o papel "dos olhos do espectador" no filme e é também a figura mais pungente. Sou suspeito. Tenho uma filha adolescente por quem sou absolutamente apaixonado e tento imaginá-la, numa circunstância assim, sofrendo e enfrentando um mundo para o qual certamente um adolescente não está preparado.
Adolescentes - e eles são o meu dia-a-dia - "pedem socorro" para os adultos que estão ao seu alcance. Um amigo da minha filha, cujo pai é um engenheiro brasileiro que trabalha na China (indo e voltando a Porto Alegre algumas vezes por ano), disse à mãe que "nos adora". Mantemos uma relação legal de amizade com o guri (que vive aqui em casa). Dou-lhe filmes e ele também me indica, segundo o gosto adolescente dele, também outros filmes. O guri gosta da gente a ponto do pai, na sua última volta da China, trazer presentes para nós de lá. Ou seja, um pai ausente é "temporariamente substituído" por outro; desde que esse outro acolha o adolescente. Minha filha, modéstia à parte, é afetivamente muito segura e não procura "pais emprestados" por aí. Mas vários amigos e amigas dela fazem isso, aqui em casa.
A menina do filme não tem a quem pedir socorro, a não ser a um homem surdo-mudo que mora sozinho na beira do rio, onde vive fazendo iscas para vender e também pescando. O irmão dela "do meio" gosta de construir carros de brinquedo para pilotar. O irmão mais novo é um menino inteligente mas com dificuldades de relacionamento, a ponto de - na época - ser chamado de "retardado".
O filme é sobre a dor de crescer; uma dor lírica de certa forma. E sobre a dor da distância, e do amor que não se pode resolver; nem que se queira. Há momentos em que é bem perceptível a solidão e o abandono da menina, metida num mundo em que as coisas não podem ser resolvidas. Ou que ela não sabe como resolvê-las. E sobre o vazio enorme que há entre aquilo que se efetivamente sente e o que verdadeiramente chega a quem é objeto desse sentimento.
MAMÃE FOI AO CABELEIREIRO é um filme e uma lição sobre os danos que a gente pode causar no afeto dos outros. Sobretudo naqueles cuja alma é mais pura, ou mais "branca" (no sentido de "inocente", por favor, não se trata de racismo) do que a nossa.
FILMES EM CARTAZ EM PORTO ALEGRE, QUE NÃO FORAM COMENTADOS AQUI.
A DAMA DE FERRO - Os caras exageram um pouco com a interpretação da MERYL STREEP em qualquer filme do qual ela participe. Ela é boa atriz, sim. Mas na verdade o que se vê nas suas interpretações é uma repetição de "chavões interpretativos" (caras, bocas, olhares, alterações de voz e até gritos) que acabam fazendo com que ela (ou qualquer ator mais conhecido e veterano) faça sempre o mesmo personagem. Aqui ela faz a vida da Margaret Tatcher, que foi a poderosa Primeira-Ministra inglesa por onze anos, de 1979 a 1990. Um filme bacana para relembrar a História; eu vivi esse período e lembro bem, sobretudo da Guerra das Malvinas em 1982, já que eu era reservista da Marinha e morria de medo de ir "patrulhar" o Atlântico Sul nessas banheiras velhas que o Brasil chama de navios. Ao contrário do que a maioria das pessoas que assistem o filme pensa, Margaret Tatcher NÃO MORREU só que ela não verá o filme sobre a sua própria vida. Ela está com problemas decorrentes da velhice (86 anos, embora a minha sogra esteja com 87 e completamente lúcida) e não reconhece mais ninguém e, claro, não aparece mais em público. Provavelmente Ahlzeimer, embora ninguém toque no assunto; nem no filme e nem na Internet. O filme, aliás, se presta a mostrar esse envelhecimento dela; um tanto precoce (começou no ano 2000) e que, me parece, em 2008 atingiu o seu ápice. Na trama é mostrada a juventude, o inicio da carreira política, o auge e a derrocada com o ódio da opinião pública, para depois reconquistar a admiração do povo inglês. Mas, sobretudo, em flashback e na velhice de Maggie (como era chamada pelo povo), as suas lembranças. Um personagem que a acompanha na velhice é o marido, Dennis, um industrial rico que morreu há muitos anos e cujo espírito a "acompanha" durante todo o filme, falando com ela. Não é um filme ruim, mas muito fora do nosso contexto latino para ser considerado excelente como estão dizendo que ele é.
O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS - Outro filme inglês. Baseado no livro homônimo de JOHN LE CARRÉ, o próprio escritor assina o roteiro do filme junto com outro roteirista. Tido e havido como um filme "que prende você da primeira à última cena" (pra usar um chavão), aqui eu jogo a toalha. Tentei assistir o filme DUAS VEZES e desisti. Ele é arrastado, lento, "muito inglês" (sem sabor) e absolutamente cifrado. Sabe-se que está falando da Guerra Fria, pois a trama se passa nos Anos 70. E temos um elenco muito bom de atores, porém todos ingleses. E os ingleses não perdem aquela frieza, ou aquela pose, de sempre. A conclusão é que é um filme DIFÍCIL. É um filme de espionagem? Sim, é, mas não espere dele qualquer ação. Quer saber de uma coisa? Não assista. Chato pra caralho.
FILMES EM CARTAZ EM PORTO ALEGRE HOJE, JÁ COMENTADOS AQUI:
Entra em cartaz recém agora (hoje) em Porto Alegre, e assim mesmo em pré-estréia, o filme DRIVE, que pela classificação da Zero Hora está com "cinco bolinhas" (por alguma razão eles não classificam os filmes com estrelas e sim com bolinhas). Já comentei o filme aqui emOUTUBRO de 2011 (releia em: http://bundanapoltrona.blogspot.com/2011/10/drive-um-motorista-e-duble-silencioso-e.html). O filme, de fato, é bom.
Outro engano que cometi foi com o filme O PALHAÇO, que eu afirmei estar "chegando em DVD". E de fato deve estar chegando, mas ele continua sendo exibido num cinema daqui de Porto Alegre.
Fumo aqui um cubano Fonsecae bebo uma Milleramericana, já que a similar nacional não é mais feita no Brasil.
Interrompo um contrato que vai para uma multinacional de cosméticos, lá nos Estados Unidos. E preciso entregá-lo ainda hoje. Ainda será vertido para o inglês (pelo cliente) e enviado.
Ouço daqui o DVD (mas não vejo as imagens) com o GEORGE MICHAEL cantando a bela A Different Corner (abaixo, o vídeo). Eu sei, o George Michael é gay e, por essa razão, é um ícone para as pessoas que têm essa condição sexual. Mas a música dele é indiscutivelmente bonita, seja qual for a condição sexual de quem a ouve ou a do próprio intérprete. E eu gosto da música dele. Sou hetero, assumido, é bom dizer. Neguinho costuma ter uma imaginação muito fértil...
O meu livro SEGREDO E FIM, o único ROMANCE que escrevi até hoje, não passou de uma tentativa e de uma ilusão. Não acompanho a sua vendagem, não sei se é encontrável nas livrarias. Tenho uns quatro exemplares, ainda, aqui em casa. Nunca mais me interessei por ele, o que equivale a abandonar um filho nas ruas.
Eu tenho um primo que sumiu do mapa, aqui em Porto Alegre, há muitos anos. Não se sabe se foi enterrado numa vala comum, ou se hoje é um mendigo. De vez em quando travo "amizades" com uns mendigos. De outros, não gosto, porque são chatos. Há um, na esquina da Ipiranga com a Barão do Amazonas, que me aperta a mão (suja), quando recebe umas moedas. Um outro mais divertido, na esquina da Aparício Borges com a Bento, uma vez me disse "abrace um mendigo", debochado, dizendo depois que "abraçar um mendigo há dez dias sem banho, não é fácil". Eu rio até hoje daquilo. E, claro, dei uma grana legal pra ele pelo bom humor do cara.
Esse meu primo tinha problemas mentais (desconfio que seja um problema na nossa família...) e vindo de uma família muito pobre, desde que o pai dele, meu tio, morreu. Me parece que tinha AIDS, o rapaz. E ninguém, nem os irmãos dele, sabem do seu paradeiro há anos. Fiquei sabendo desse sumiço dele nesta semana, por conta de uns problemas legais que ajudarei a resolver.
Faço muita caridade (é um propósito meu, desde que me formei) com a minha profissão. Trabalho de graça para muita gente. Nesta semana que vem tenho uma audiência num processo em que atuo GRÁTIS para uma senhora conhecida, viúva, necessitada. E se essa gente são meus parentes mais necessitados, mais ainda eu os ajudo. Afinal, não sou porra nenhuma nesta vida. E também luto com algumas dificuldades. E essasdificuldadesme caem do céu não feito chuva, mas como raios que tentam, renitentemente, partir-me ao meio, há anos.
Por conta dessa luta e dessas dificuldades, abandono SEGREDO E FIM. Já havia abandonado o livro há anos, esse meu "filho". Agora abandono e deleto também o blog (http://segredoefim.blogspot.com) que na época foi criado exclusivamente para divulgar o Romance e também para os meus comentários.
Em breve haverá outras "deletagens" ("deletações?") de blog.
Já vi em vários pontos comerciais alguém anunciando "vendo o ponto, por mudança de ramo". É meio isso o que vou fazer, em breve. Vou mudar definitivamente de ramo. E fazer apenas o que eu PENSO que sei fazer melhor. Ou até fazer outras "artes" por aí. Mas essas não vão precisar de comentários e nem de divulgações em blog. O anonimato é o esconderijo dos humildes, nesses tempos de Internet fácil. A frase é minha. Se copiar, credite a autoria.
Misturar-me-ei à multidão. De onde, penso, eu jamais deveria ter saído. Vou tentar "uma esquina diferente", como diz a música abaixo:
SELTON MELLO CONTINUA EM FORMA (COMO ATOR E COMO DIRETOR) EM O PALHAÇO (filme chegando em DVD).
Bem badalado no final do ano passado, o filme O PALHAÇO, com a volta de SELTON MELLO à direção de cinema, confirma a competência do cara no quesito "sutileza", já demonstrado no filme anterior que dirigiu (Feliz Natal, com Darlene Glória).
O filme é de uma simplicidade atroz, mas consegue não cair na pieguice usual dos filmes nacionais. Porque explora essa simplicidade de uma maneira benéfica. Claro, é para emocionar aqueles que são de se emocionar. Se você mostrar para um tabacudo (a) que não entende nada de cinema e nem de gente, essa pessoa provavelmente achará o filme chato. Selton Mello se chama Benjamim, tal como o personagem homônimo que o irmão dele (Danton Mello) fez no filme baseado no livro (também homônimo) de Chico Buarque. Em O PALHAÇO o irmão de Selton, Danton, também está presente. Já o pai de Selton no filme é Valdemar (PAULO JOSÉ, que mesmo com a sua doença continua atuando magnificamente e sendo um dos meus poucos orgulhos como gaúcho e conterrâneo). Os dois formam a dupla de palhaços Pangaré e Puro Sangue, que percorrem o interior do Brasil com seu circo ("Circo Esperança") cheio de remendos e caindo aos pedaços, como tantos que a gente vê por aí, na estrada.
Benjamim está cansado de não ter identidade e nem profissão; não ter namorada e nem rumo certo. Essa vida errante, que contenta o seu pai (que não a discute), já não lhe satisfaz. Além disso, como "herdeiro" do circo, precisa tratar de assuntos tão prosaicos como erguer a lona; arranjar uma botina para um artista e até um sutiã para uma outra artista gordinha.
O filme tem momentos simples e absolutamente comoventes, baseados unicamente na sua própria simplicidade, pois parece reproduzir (e não apenas "interpretar") a vida das pessoas pobres e de sonhos pequenos que há, aos montes, por esse Brasil afora. Selton Mello é mineiro de Passos e Paulo José é gaúcho de Lavras do Sul, duas Cidades homenageadas (por menção) no filme. Eles parecem trazer, cada qual da sua respectiva geração, daquelas Cidades e dos seus Estados, um quinhão de inocência para o filme.
Há momentos bacanas e de humor à antiga, garantidos por humoristas da velha geração como MOACYR FRANCO e JORGE LOREDO (o veterano "Zé Bonitinho", que além de humorista também sempre foi advogado militante no Rio de Janeiro), o que também dá ao filme um toque de lirismo.
A beleza, como eu disse, está em muito na miséria financeira dos personagens, ou na sua ignorância. A cena em que Benjamin conversa, numa das cidades, com uma gordinha enamorada (a humorista FABIANA CARLA, do Zorra Total), é um show de interpretação. O amor sempre é belo de ser visto, mesmo quando ele é essencial e daquela forma praticada pelos "sem estudo" ou pelos pobres, nos confins deste Brasil.
O mesmo se aplica ao resto dos sentimentos retratados no filme. Que é um daqueles de se assistir e se comprar o DVD, para ter em casa.
DUAS VIÚVAS DISPUTAM O MESMO MORTO NESSE NOVO FILME ARGENTINO: VIUDAS (filme fora de circuito).
(Ambiente: DVD de Phil Collins, ao vivo em Paris, e cerveja Itaipava)
O chamado Feriadão de Carnaval já agoniza, com seus calores exagerados e suas passageiras chuvas de Verão. Pela "cara" do céu, deve cair mais um toró ainda hoje, pois um já caiu. A Metereologia nunca acerta, menos ainda aquela consultada pela Zero Hora que diz "com certeza" que vai fazer calor durante mais cinco dias e, com a maior cara de pau, diz algumas horas depois (e sem desmentir o primeiro boletim), que vai chover e muito. Ou seja, não sabemlhufas.
A esta horas centenas de milhares dos chamados veranistas empurram-se de carro pelas estradas do Litoral, gaúcho ou catarinense. Boa sorte, pessoal. Eu já entrei na piscina pela manhã e agora estou no ar condicionado, bebendo a minha cerveja gelada.
O Barra Shopping ontem (segunda) à tarde parecia uma instalação nos Emirados Árabes. Uma daquelas construções imensas no meio do deserto, refrigeradas, onde os tuaregues vão se refugiar. Aqui não eram os tuaregues que se refugiavam, mas os portoalegrenses. Era uma visão onírica. Nunca vi tanta GENTE FEIA junta. A impressão que eu tive era a de que haviam aberto acidentalmente os Portões do Inferno. E abriram o portão principal e o portão de serviço, pois havia demônios de todas as procedências. Além da feiúra, a já costumeira e tradicional grosseria gauchesca e portoalegrense.
O filme VIUDAS("viúvas") é argentino mas não é um dos melhores da sua origem. Uma socióloga argentina; que conheci numa pousada na praia, já havia visto o filme - e eu, que disse para ela que o tinha comigo - me avisou que ele não era dos melhores. "Quebra o galho", ela me disse, numa expressão em espanhol equivalente a isso.
De fato, o filme não é um digno representante da boa qualidade do novo (e excelente) Cinema Argentino. Mas, ainda assim, não é de todo ruim. O que confirma, até agora, a minha afirmação sempre feita de que não conheço nenhum filme feito na Argentina que seja completamente ruim.
A história é improvável, mas tem o seu conteúdo reflexivo. Um dia Elena, uma madura (maduríssima, aliás) diretora de documentários está filmando quando lhe avisam que o marido (sessentão) Augusto teve um infarto. Corre para o hospital e, ao chegar lá, percebe que junto com o homem no atendimento de urgência há uma jovem tão chorosa por causa dele quanto ela. Descobre que a moça (muito mais jovem do que ela e o marido), Adela, era "muito próxima" dele. E descobre isso a ponto de poder falar com Augusto, que ainda está mal na UTI, sobre o assunto. Xinga o marido, claro. E ele, balbucia que Elena deve "cuidar de Adela". Augusto morre.
A partir de então, as duas mulheres passam a conviver de uma maneira inusitada: Elena, a esposa, tentando entender como é que o homem com quem ela vivia teve uma vida paralela com outra, bem mais jovem, por 5 anos. E Adela tentando se aproximar de Elena para conhecer a vida de Augusto que ela desconhecia. Até o meio do filme você fica em dúvida se Adela era REALMENTE uma amante de Augusto ou se era uma filha bastarda; ou uma filha de criação, ou uma menina que ele ajudava de alguma forma. Estrago o mistério agora: ela era mesmo amante dele. Ele mantinha um apartamento alugado no Bairro Chinês de Buenos Aires, aonde encontrava-se semanalmente com Adela. Nesse aspecto, acho que o filme foi fiel à realidade e, por isso mesmo, mais aceitável.
Ao mesmo tempo que há o trauma de Elena por causa da descoberta tardia da vida clandestina do marido, há também o trauma de Adela que "não pode chorar por ele", pois não era viúva e nem nada do morto. A atriz que faz Elena é infinitamente melhor do que a jovem que faz Adela.
No meio de tudo isso há Justina, uma "empregada" (na verdade um empregado que é travesti) que sempre foi fiel a Augusto e aos segredos dele, que apoiava Justina em tudo. Justina dá um toque de humor na trama, pois é desbocada e cheia de "confianças" com a patroa.
Como eu disse no inicio, VIUDAS não é um dos melhores trabalhos do Cinema Argentino. Mas dá para ver sem susto e é um filme novo, que recém estreou por lá. Em breve deve chegar aqui.
THE MAN ON THE TRAIN: A INUSITADA AMIZADE ENTRE UM ASSALTANTE E UM PROFESSOR DE LITERATURA, NA REFILMAGEM DE UM FILME PREMIADO (filme fora de circuito). O filme é inusitado, mas não é original. Trata-se de uma refilmagem de um outro filme de 2002, feito na França. E o inusitado do filme vem nas DISCUSSÕES, quase todas poéticas, que ocorrem durante a trama, num filme que tradicionalmente não teria espaço para questionamentos desse tipo. É um filme "de assalto" e ninguém discute poesia num filme de assalto a banco. Mas esse foi propositadamente desenvolvido nesse rumo. Um criminoso misterioso (e caladão) chega no trem ("o homem no trem", do título) numa pequena e abandonada cidade do interior com a intenção de roubar o banco local. Ele já não está mais na "batida" de assaltar e demonstra claramente que deseja se aposentar daquela vida. Ao chegar, e ir numa farmácia comprar remédios pra dor de cabeça, acaba conhecendo um falante e aposentado professor de literatura. A "amizade" que surge não é muito amistosa, pois enquanto o professor fala bastante o assaltante mal abre a boca. O professor acaba hospedando o assaltante na sua casa. O interessante é que há um contraponto (certamente proposital do roteiro) para isso: quando chegam à cidade os comparsas do assaltante para completar o assalto, um desses comparsas só fala uma vez por dia, desde que a mulher dele se foi (segundo outro comparsa). E na única vez em que esse assaltante fala, diz uma frase de efeito. Parece uma comédia, mas não é isso. O filme é um drama ou, ao menos, um thriller com uma expectativa de ação (o assalto, em si). Os rumos improváveis da amizade entre o professor e o assaltante decorrem da vontade que ambos têm de dar um rumo novo nas suas vidas, vivendo aquilo que nunca viveram. O professor intuitivamente percebe que o homem não está na cidade a passeio, mas também percebe que ele tem ou teve uma vida radicalmente diferente da sua. E o contrário também se dá, com a atípica aula que o assaltante dá (já imaginou?) a um aluno particular do professor, sobre o escritor Henry James. Ou seja, o assaltante também gostaria de ser um professor, tanto quanto o professor gostaria de ser um assaltante. Eles não têm nome, no filme. Um é apenas "o homem" e o outro é "o professor". Se por um lado em alguns momentos os diálogos (do professor) são longos e didáticos DEMAIS, o contraponto do silêncio do assaltante ajuda a digerir o filme para o qual a gente na realidade não está preparado. Um filme de assalto a banco, e ainda canadense (que costuma ser uma imitação barata dos americanos), não costuma ter, como eu já disse no inicio, grandes elucubrações filosóficas. Mas a amizade entre ambos é intelectual e ela é o principal ponto do filme, e não o assalto. E essa amizade pesa a ponto de um ter "ciúme afetivo" do outro. Quando o professor apresenta ao assaltante uma velha namorada (mulher também culta e que "se encontra" - pra não dizer "transa" - ocasionalmente há anos com o professor), os dois - amigo e namorada - imediatamente antipatizam, para não dividirem a amizade do velho culto. Mais tarde a "coroa" insinua uma sedução ao assaltante, que não acontece no filme. As surpresas principais de THE MAN ON THE TRAIN ficam por conta dos personagens principais do elenco. O professor é feito por um empolgadíssimo e veterano DONALDSUTHERLAND, ator da antiga e que, hoje, para a nova geração, é conhecido apenas como o pai deKiefer Sutherland; o Jack Bauer do seriado americano 24 horas. O mais inusitado é o ator que faz o assaltante. Que nunca foi ator na vida. Ele é LARRY MULLEN JR., o BATERISTA DE UMA DAS BANDAS MAIS FAMOSAS DE TODOS OS TEMPOS, O U2 !!! Quem conhece Larry na vida real, diz que o personagem - caladão e sedutor, mas contido - é o próprio estilo dele fora da tela. Matou a pau como ator, na sua estréia.
O DIRETOR ROMAN POLANSKI VOLTA DEPOIS DE MUITOS ANOS COM CARNAGE TENTANDO FAZER COMÉDIA MAS ESTÁ MUITO ACIMA DO NÍVEL DE ENTENDIMENTO DE NÓS, OS MORTAIS (filme fora de circuito).
(Ambiente: DVD de Adele no Royal Albert; charuto Fonseca e um vinho branco Colheita Tardia)
Sexta de Carnaval. A Cidade está "desértica" e o calor senegalês. Alguns dizem "senegalesco". Não sei qual é o correto e nem vou procurar.
Fui à academia, jantei, comprei charutos e aqui estou, ouvindo a Adele (as véias, emocionadas com a música da novela, adoram pronunciar "Adél", que é a pronuncia correta). Não é um programa dos mais indicados em pleno Carnaval; menos ainda se estando sozinho na Cidade. Depois que eu terminar de beber o vinho, então, provavelmente terei vontade de cortar os pulsos com uma faquinha de plástico, dessas de aniversário, pra doer bastante. Mas vamos em frente. A noite me manda uma brisa boa da rua, pois ficar com o ar condicionado ligado não combina com o charuto cuja fumaça eu sopro pra fora.
O filme CARNAGE, chamado também de "O Deus da Carnificina" (provável título que terá no Brasil) não é para o nosso bico. Ele tem atores "americanos" (um deles é austríaco, mas vive nos EUA) consagrados e pode ser chamado assim, de "filme americano", embora o Diretor seja o ROMAN POLANSKI, diretor polonês (nascido na França, mas criado na Polônia) polêmico sempre envolvido em confusões (até prisão decretada ele teve, nos EUA, por suposto estupro). O filme é o retorno de Polanski ao cinema, seu mais recente filme depois de muitos anos.
Não veja o filme. Ele nos é "vendido" como comédia e se presta a isso. Mas se você acha as comédias do Woody Allen, por exemplo, "cerebrais" demais, vai ODIAR o Polanski. É comédia para americano rico que ri fazendo "oh-oh-oh", feito o Papai Noel. Risada com empáfia.
O filme se passa INTEIRO dentro de um apartamento com os quatro atores inicialmente discutindo a agressão do filho (criança) de uns pelo filho dos outros numa brincadeira de escola. A partir dali eles passam a se agredir por várias outras questões que vão de ironias de um (um advogado, metido a besta) sobre a profissão do outro (um representante comercial de baldes e quinquilharias), até a maneira de educar os filhos e as habilidades culinárias de uma das mulheres. O elenco é bom, mas o filme garante pequenas risadas e, no resto, é intragável ou ininteligível.
Eu, que tenho o cérebro pouco maior do que um tomate-cereja (o que já é maior do que uma ervilha), não entendi muita coisa. Claro, aqui em Porto Alegre, com este público metido a besta, os gaúchos dirão que o filme é MA-RA-VI-LHO-SO e CARNAGE deve ficar em cartaz por meses, embora os imbecis na verdade não vão entender absolutamente nada.
TYRANNOSAUR: FILME INGLÊS PREMIADO QUE SURPREENDE PELA ABSOLUTA FALTA DE "TEMPERO" (filme fora de circuito).
O filme TYRANNOSAUR ("tiranossauro"), que sequer foi distribuído ainda no Brasil, fez sucesso na Inglaterra (onde foi anunciado como "o filme do ano"), que é o seu País de origem, e, contam, fez sucesso no final do ano passado também aqui no Brasil, no Festival do Rio.
Pelas críticas que se lê a respeito do filme eu esperava muito mais. É claro que é preciso abstrair um pouco do nosso gosto um tanto latinoa nossa maneira afetuosa (às vezes demais) de demonstrar sentimentos, para enxergar que na Europa, por exemplo, as pessoas não são tão afetivas assim e que isso é o normal entre eles. Mas que pode ser chata, num filme, a frieza, isso pode. Mesmo que faça parte proposital do enredo.
E digo isso porque, em tese, TYRANNOSAUR conta a suposta "história de amor entre o viúvo Joseph (Peter Mullan), um beberrão que faz da violência um escudo afetivo, e Hannah (Olivia Colman), uma católica fervorosa espancada pelo marido (Eddie Marsan)".
O filme é inglês demais para o meu gosto. O Diretor, aliás, é um ator inglês, chamado Paddy Considine, que já trabalhou em um ou dois filmes com o Jason Stathan.
A história que se desenrola nos filmes ingleses sempre tem componentes beberrões (o que parece ser uma característica do povo de lá) e de humor extremamente contido, ou frio. São tramas sem tempero, provavelmente pela falta, nelas, da nossa latinidade já comentada no inicio.
Chamar o filme de "história de amor", como menciona a resenha transcrita acima entre aspas, é forçar demais a barra. Não há um envolvimento romântico-afetivo e sequer sexual que justifique chamar a aproximação entre o tal viúvo e a mulher casada de "romance". Não há carinho; não há fogo. Os dois estão na foto acima.
Obviamente que o contexto em que tudo se dá é muito propositadamente hardcore; no casal protagonista o homem é um fracassado (ainda que aposentado) e a mulher apanha de um marido que a culpa (implícitamente) por não ter lhe dado filhos. São duas pessoas machucadas, ou endurecidas, pela vida. Tudo bem.
Mesmo assim, essa dureza num filme francês, espanhol, argentino e até num brasileiro (e as pessoas no Brasil, nós sabemos, vivem realidades bem duras e tão ásperas quanto aquela do filme) teria sido melhor explorada com um pouco mais de lirismo.
Poderia manter-se toda a aspereza da vida dos protagonistas, e até as limitações afetivas na personalidade de ambos, mas sem deixar de botar uma "florzinha colorida" lá no meio. O que eu chamo de botar uma "florzinha colorida" é pegar uma paisagem cinzenta e fria e colorir uma parte dela com um pouco de sensibilidade. Uma música, um gesto.
O filme é de uma chatice atroz. Insosso, inodoro e insalubre. Mais por omissão do que por ação. Às vezes um filme incomoda por ações muito violentas, duras. Esse é chato porque não acontece nada muito digno de ser chamado de emoção.
Até o NOME DO FILME parte de um contexto absolutamente besta e que pouco tem a ver com a trama. Acontece que o tal viúvo, quando a esposa era viva, a chamava ("carinhosamente") de "tiranossauro". Porque ela era grande e pesada e se movimentava fazendo barulho com os pés pela casa. Ele refere, numa única conversa durante o filme, que se arrepende de tê-la chamado assim. Mas na trama ela já morreu há anos e não aparece no filme nem em flashback. O título, portanto, é absolutamente descabido.
Não gostei. Na minha opinião eu não veria esse filme nem em DVD. Menos ainda no cinema.
UM CANDIDATO AMERICANO AO OSCAR COM CARA DE FILME INDIE: OS DESCENDENTES, COM GEORGE CLOONEY. (filme de cinema).
(Ambiente:vinho branco chileno Hacienda Del Rey, música Tudo que Vai, do Capital Inicial)
Chega de conversa mole. Voltemos aos filmes. E já vamos de Oscar, direto.
O filme OS DESCENDENTES para mim já tem uma espécie de "mérito antecipado" que é a presença do GEORGE CLOONEY, para mim um dos melhores atores da sua (nossa) geração. E concorre ao Oscar de MELHOR FILME. O curioso, nesse filme, é que ele faz o papel de tudo o que ele não é, e nem quer ser, na vida real: marido e pai. Clooney tem ojeriza de qualquer uma dessas palavras. Já deixou suficientemente claro que não irá se casar e nem quer "perpetuar a espécie". Nem vou entrar nesse mérito. Mas o melhor, nisso tudo, é ele fazer justamente um papel do contrário de tudo aquilo no qual acredita. É como se o Ricky Martin fizesse o papel de um machão homofóbico. Interpretar o contrário do que se é, é um grande desafio.
É mais ou menos como escrever, criando um personagem avesso. Criar personagens "bonzinhos" e autobiográficos como o faz a maioria dos chamados escritores gaúchos (e geralmente uns merdas medíocres) é fácil. Quero ver é criar alguém que seja O CONTRÁRIO do que se é, na vida real.
O filme se passa no Hawaii que, para quem não entende lhufas de Geografia, é um território americano. Uma espécie de "Ilhas Malvinas" (ou Falklands segundo os idiotas dos ingleses, que querem tomá-las dos argentinos) dos Estados Unidos, colonizadas originalmente por polinésios e que foi ROUBADA pelos americanos, na mão-grande, com o poder militar. Lá se situa a Base americana de Pearl Harbour, que foi invadida por uma "nuvem" de aviões japoneses na Segunda Guerra, fazendo com que os EUA entrassem naquela briga.
O Hawaii (que fica num Arquipélago chamado antigamente de Ilhas Sandwich) é uma parte dos Estados Unidos que não está anexada ao território americano porque fica no Oceano Pacífico e decorre, em muito, da miscigenação dos americanos com os polinésios. Havia por lá uma monarquia.
O personagem de George Clooney (que se chama Matthew King, e "king" significa "rei", como todo mundo sabe) é um advogado descendente dessas dinastias monárquicas originais do Hawaii. Ele e a sua família (inúmeros primos, todos gananciosos e parasitas) ainda possuem um pedaço de terras no Arquipélago, que valem alguns BILHÕES de dólares. O único que vive do seu próprio trabalho, no escritório de advocacia que possui, é Matt. Ele, por ser advogado, foi nomeado curador por um Juiz e indicado pelos primos (para quem não é advogado: o curador é uma espécie de "responsável") para a venda dessas terras. A venda deixará a todos muito ricos.
Acontece que a mulher de Matt sofreu um acidente de barco. Justamente quando estava meio brigada com ele, que só trabalha e não tem tempo para "ser marido". Os dois têm duas filhas; uma adolescente de 16 ou 17 anos e uma outra de uns 10 ou 12. A mulher, em coma e vegetativa, não se manifesta. Aliás, horrível a imagem dela (não se pode dizer que a atriz "interpreta" alguma coisa, a não ser quando é mostrada em flashback), com um tubo enfiado na traquéia.
A partir disso, ele é obrigado a conviver (e a criar) as duas filhas. E não tem a menor habilidade com isso. O filme, já aviso, vai numa linha indie (no que, aliás, é bem sucedido), diferente daquilo que normalmente se espera de um dos costumeiros sucessos comerciais norte-americanos. Portanto, o grande hit da trama está em não acontecer nada mirabolante no filme, a não ser mostrar um pai; até então ausente, tentando conviver com as duas filhas. A filha mais velha (como qualquer adolescente) hostiliza qualquer pessoa com mais de vinte anos de idade. Já a pequena é tolerante com Matt e ainda acha que o pai é um herói e não um babaca que está sempre errado em tudo(bons tempos, aqueles...).
Aos poucos, as coisas mudam. Especialmente quando a menina mais velha conta a Matt que um dia VIU a mãe o traindo com um estranho. E os dois; pai e filha, se unem para "peitar" esse infiel.
O filme tem personagens interessantes. Syd, amigo da filha mais velha, é um adolescente escroto e ele próprio tem uma vida conturbada. O avô das meninas, pai da mãe em coma, é outro desses personagens.
E tem o George Clooney. Quando ele faz o papel do habitual galã, convence o mulherio. Geralmente as "véias", apaixonadas por ele. Mas quando ele faz o papel de "desengonçado" é impagável. A cena dele, ao descobrir a traição da mulher, correndo na vizinhança com uns sapatos daqueles de velho, já virou antológica. E é comentada nas críticas a OS DESCENDENTES que se encontra por aí (a cena está quase inteira no trailer abaixo).
Com esse nariz e esses olhos completamente inchados aí em cima (e não é de dormir), fica difícil distinguir quem seja o RODRIGO MINOTAURO, grande lutador de MMA e este blogueiro, depois de uns dois ou três socos levados na cara (dele).
A luta continua.
Como sempre me sói acontecer, os verdadeiros (e melhores) personagens que jamais eu consegui criar quando tinha o sonho (e foi um belo sonho...) de ser escritor, estão na vida real. E aparecem na minha frente o tempo todo. Alguns são meio diferentes, mas na verdade nada têm de tão especial assim. Senão o simples e corriqueiro e inapelável fato de que viver já é, por si só, uma espécie de "auto-livro" (que se escreve sozinho) e constrói literatura da melhor espécie.
É o Trem das Cores de que fala o Caetano na música.
Bebi cerveja num quiosque vagabundo de beira de praia com o dono do quiosque e com um vendedor de picolé que estava de folga. O riso franco dos seus dentes completamente estragados nos igualou, porque na hora de falar besteira (ainda mais bebendo cerveja) e de ir ao banheiro, todo mundo é rigorosamente igual.
Na pousada de um argentino e de um uruguaio (suspeito que os dois homens fossem um casal, mas não tenho certeza), predominavam os hóspedes argentinos; nós éramos uns dos únicos brasileiros. Sempre tive facilidade de me enturmar com os vizinhos da Argentina, que chegam no Brasil meio desconfiados dos brasileiros e, por isso mesmo, andando somente com os próprios compatriotas deles. Eu sei como tratá-los. Aliás, basta tratá-los com respeito e considerando o fato de que no País vizinho ninguém é de axé, funk ou de bundas rebolando a nossa costumeira e vulgar breguice. De uma conversa que começou na piscina aonde eu estava sozinho com duas meninas argentinas (é gostoso ouvir as crianças falando em espanhol e conversar com elas), de 6 e 7 anos de idade, o papo se espalhou para os pais e demais argentinos que estavam por lá. Gente interessante, cruza a Fronteira. A mãe e o pai de uma das meninas (Ana Elisa, que eles pronunciam "elissa") eram, respectivamente, um historiador e uma socióloga, professores universitários; o pai barbudo e bem mais velho do que a mãe. Da outra menina (Maytena)os pais tinham a mesma idade (uns trinta; trinta e poucos) e pareciam dados ao esporte. A mãe, disse-me que agradava-lhe especialmente "el baile" (dançar).
Na mesma pousada, uma menina de 21 anos, sozinha, vivia conversando com alguém no computador. Descobriu-se, depois, que ela era do Nordeste (mas morando no Centro-Oeste) e que estava aqui "esperando o namorado". O namorado é gaúcho, bem mais velho e fazendeiro. Ele, segundo a própria, paga a conta dela na pousada. Ou seja, a moça deve ser a "teúda e manteúda" (gíria do Nordeste para alguém que é "tida e mantida" por Fulano) do malandrão, que deve ser casado (ela não disse e nem lhe foi perguntado, somos pessoas discretas) e estar com a família numa casa ou num hotel ali por perto. As meninas daqui de casa "adotaram" a moça com pena da solidão dela e a levaram para a praia com elas.
Numa outra pousada, uma aristocrática senhora (notava-se pela sua maneira de ser e de agir), minha vizinha de sacada, não hesitava em reclamar...do meu charuto! Ela sequer tinha a deferência de dirigir-me o olhar. Era como se eu não existisse. Assim mesmo, em alto e bom som, dizia "que charuto fedorento!" e entrava nos seus aposentos, os maiores daquela pousada. Desconfio que mesmo que eu fumasse um Hoyo de Monterey ela reclamaria da mesma forma. Além disso, o meu charuto era um cubano Guantanamera, que foi o único que encontrei por lá. Duvido que fosse malcheiroso. Gente que nasce em berço de ouro (ainda mais sendo gaúcha...) acha que está sempre em casa e é infinitamente mais mal educada do que um vendedor de picolés de folga, como aquele que eu referi no inicio desta postagem. Eu, devolvendo-lhe a má-educação, reclamei em alto e bom som das conversas inúteis que ela mantinha ao telefone, de manhã, enquanto tentávamos dormir. Ela nem respondeu, claro. Eu não existia. Mais um pouco e eu a mandaria tomar no cu, com aristocracia e tudo. Não foi necessário.
DOIS VÍDEOS, DUAS CANTORAS: ADELE E WHITNEY HOUSTON.
Não desgosto da nova sensação britânica (e mundial), a gordinha ADELE. Pelo contrário, gosto bastante. Claro que eu sei que ela é inegavelmente um (ou mais um) espetáculo midiático como foi a sua antecessora e compatriota, a AMY WINEHOUSE, "criadas" para vender discos.
A diferença, agora, é que Adele faz o papel daquela "gordinha rejeitada" com a qual todo mundo se identifica ou, por isso mesmo (por ser gordinha e fugir dos padrões de beleza), se identifica. Amy era a junkie girl (ou drunkie girl) por excelência, que tomava todas de bar em bar até cair na sarjeta, o que não despertava lá muita identificação nas mulheres.
Adele, agora, é um ídolo construído em cima de uma pessoa comum e que parece não se importar de contar as suas desventuras no palco como se estivesse reunida com as amigas, ao explicar como nasceu esta ou aquela letra de música. Geralmente contando como ela deu-se mal com este ou com aquele namorado. Isso parece natural nela, mas é óbvio que os seus produtores tiram proveito disso. O anti-heróisempre faz sucesso, ainda mais nas coisas do amor, em que todo o mundo mais cedo ou mais tarde é ou se considera um anti-herói e acaba se "ferrando".
Temos assistido aqui em casa ao show dela que anda circulando por aí em DVD, gravado no ano passado no Royal Albert Hall, de Londres. Nesse show, do qual foi retirado o trecho acima, ela conversa bastante com o público, por isso para quem não domina o inglês é importante assisti-lo com as respectivas legendas em português.
De todas as músicas que canta, e de todas as histórias que conta sobre as mesmas músicas, inegavelmente a história do hit (que toca bastante, portanto) Someone Like You ("alguém como você", mesmo nome de uma antiga música do americano VAN MORRISON, já reproduzida aqui, mas que não é a mesma) é uma das mais interessantes.
Nesse show ela conta que escreveu a música para um cara a quem amou muito (e que hoje está feliz com outra) e que ela reconhece que, pela letra da música, ele parece ser o vilão na história deles. Mas com toda a honestidade, ela reconhece que também foi vilã e que infernizou a vida do sujeito. Pede perdão e perdoa ele em público, o que nos leva a acreditar até mesmo que ele, junto com os amigos dela (há vários amigos e amigas na platéia, todos apontados por ela durante o show), esteja presente naquele ato. Não sei.
E mais importante, ela genuinamente se emociona (e chora copiosamente) enquanto canta, levando o público ao delírio e a cantar junto com ela, aplaudindo de pé no final. Vale a pena ver a emoção dela. E a manifestação de sensibilidade de um artista, seja ou não midiática, sempre é uma demonstração de humanidade. O que nos leva a crer que seja uma válvula de escape que pode dar a Adele uma outra saída que não aquela que encontrou a falecida Amy Winehouse.
E não apenas Amy.
Na tarde deste sábado foi encontrada morta (e sozinha, num hotel) WHITNEY HOUSTON, estrela negra americana da música e do clássico filme O Guarda-Costas. Não se sabe ainda a causa da morte. Mas pelo jeito como Whitney vinha lutando contra drogas e álcool nos últimos anos, provavelmente ela tenha mesmo é desistido de viver, aos 48 anos de idade.
Abaixo ela canta o clássico I Will Always Love You("eu irei sempre amar você"), que é do citado filme. Aqui cantada a capella na clássica cena do mesmo O Guarda-Costas:
A praia é um espaço democrático. Na praia, todo mundo é irreversivelmente feio. Está todo mundo seminu, e qualquer imperfeição é perceptível. Não adianta querer disfarçar. O que mais espanta, em quem tem auto-crítica (é o meu caso), é justamente o espanto com a própria feiúra. A gente nunca pensa que é "tão feio assim" (espelhos enganam, sobretudo os espelhos de provadores de lojas)e, quando vai ver, se é feio mesmo. Pra caralho. Como dizia um amigo meu da faculdade se referindo aos outros (ele, ao contrário disso, se achava um supra-sumo da beleza), somos verdadeiros "estilhaços de aborto". Ou seja, o que sobrou de um parto clandestino. O que de certa forma consola, nesses casos, é que a maioria dos outros que estão na praia são MUITO MAIS FEIOS (e, sobretudo, mais gordos ou barrigudos) do que a gente.
O PLANETA ATLÂNTIDA (ocorrido há uma semana atrás) é, como eu já havia visto numa edição anterior, mais um espaço de delírio coletivo. Claro, como tudo o que só ser "coletivo" traz, há porcarias solenes e adoradas por milhares de gaúchos (e brasileiros) cujos cérebros (e cultura, e gosto pessoal) são do tamanho de uma ervilha. Falo de Ivete Sangalo; Michel Teló e Luan Santana, por exemplo. Pagar R$ 240 por pessoa num "camarote VIP" para assistir manifestações rasteiras de música MUITO VAGABUNDA e sem qualquer razão de ser como os citados (dentre outros) é simplesmente rasgar dinheiro. Mas eles vêm incluídos no pacote, juntamente em outras supostas "sofisticações" (que são o outro extremo da burrice coletiva). Falo do rapper e DJ Sean Kingston, um americano que, já clareando o dia, rodou músicas para as supostas 40 mil pessoas que estavam lá como se estivesse num clube de Miami com apenas 500 pessoas: gritando o tempo todo uma mesma palavraincompreensível(não sei qual é justamente porque é incompreensível, né cabeção?). Acho que ele gritava "gueto", mas não tenho qualquer certeza. E acho que àquela hora, passando das quatro e meia da madrugada, ninguém tinha certeza.
O ingresso já compensa na entrada de LULU SANTOS. Lulu neste ano optou por um visual "bicha irônica", de gravata (estampada) num pescoço sem camisa e ocasionalmente de chapéu. Com os olhos pintados por grossa maquiagem (rímel, sombra), cantou o mesmo de sempre, há 25 anos. Não importa, estava bom como nos Anos 80. Apesar de se fazer acompanhar por uma "funkeira" carioca de cabelos vermelhos e se achando gostosa (não era), tudo ficou mitigado pelo fato de Lulu ser um "dos nossos", daquela citada Geração Anos 80.
Também o CAPITAL INICIAL foi triunfal, orgásmico, apoteótico. Eu fui lá só por causa deles. No ano passado por problemas diversos, apesar do ingresso comprado, não assisti ao Capital. O vocalista Dinho (minha idade, 47 anos), parecia tão "transtornado" (não vou dizer que estava "chapado", mas provavelmente estava) que errou várias vezes a música e o tom. Jogou-se sobre a platéia num vôo espetacular por duas vezes (o Multishow mostrou tudo ao vivo). Mas estava, como sempre, inspiradíssimo e feliz. Suas palavras profundas de sempre ("é foda" ou "do caralho") não importaram tanto, porque a gente foi lá pra gritar que "chove e chove e chove..." com a música Primeiros Erros. E choveu mesmo, em alguns momentos tivemos de usar as "capas" (na verdade "sacos") que nos venderam na entrada da multidão.
Por fim, alguém que não é da minha geração, mas que passou raspando nela. Falo de CHARLIE BROWN JR., voltando a fazer shows com a velha formação (não conheci a formação antes desta). Os adolescentes são simplesmente SIDERADOS por eles, é como se fosse uma religião. Eu estava bem na frente, quase no palco, por causa da minha filha. E os adolescentes ficam simplesmente ENLOUQUECIDOS com o Chorão (o vocalista) que tem quase 40 anos de idade mas que se veste como um skatista de 17. Minha filha já havia ido em dois ou três show deles na madrugada de Porto Alegre. Sozinha. Agora, vendo de perto, e na praia, eu entendo a loucura da gurizada. Os caras são simplesmente CARISMÁTICOS. Os caras não. O Chorão, o vocalista. Vestido como alguém meio "especial" (gordo, um bermudão arrastando no chão, tênis e meias levantadas na canela, boné virado pra trás), no visual parecia que Chorão acabara de sair da APAE. E também, é claro, de "fumar unzinho", olhos brilhantes. Mas gritando mensagens MUITO MELHORES do que o Dinho do Capital (que é um "senhor" da minha idade), Chorão proclamava que "vocês são a minha família" ou valorizando questões como família, trabalho e luta por dias melhores. Mensagens bacanas, do tipo "me fodi muito na vida e agora estou aqui, com esta multidão me assistindo". É uma espécie de Legião Urbana dos dias atuais. Simplesmente incrível. E quando ele MANDAVA a gente "pular" ou "gritar" a gente, eu e os adolescentes, pulávamos e gritávamos. Felizmente a academia e a pista do CETE ali no Menino Deus me ajudaram nessa tarefa que se revelou ingrata para alguns pais (havia vários) que não pulavam um milímetro além do chão, foi impossível para os "véios gordinhos". Eu pulei o tempo todo. É quase um "arrastão do bem". Havia, claro, crianças de 14 ou 15 anos fumando maconha ao seu lado. Mas os pais não estavam junto. E com a minha filha, que não fuma nada e que só bebe quando sei (ou ela me avisa), tudo bem, eu estava junto com ela. Sou Chorão e Charlie Brown desde que nasci, lá nos Anos 60, quando eles nem pensavam em surgir (e nem nascer).
Férias para mim é sempre assim, não abro mão: praia, sol, verão, o sujeito sem camisa, suado, barba por fazer e....trabalho, dia e noite !!!! Uma "tranquilidade".
06:32h da manhã - Primeira noite do PLANETA ATLÂNTIDA - Lulu Santos, Charlie Brown Jr. e Capital Inicial foram os motivos de eu ter pago o ingresso. Nem considerei Ivete Sangalo ou Michel Teló, porcarias adoradas por muitos. Eu estava aí no meio dessa multidão. Grande noite.Depois eu comento. Fotos do site CLICRBS.