SENTIDOS DO AMOR: O FIM ESTÁ PRÓXIMO, MAS A SOLUÇÃO ESTÁ EM NÓS MESMOS (filme fora de circuito).
(Ambiente: Feriado Municipal; vinho chileno branco Hacienda Del Rey; charuto Fonseca; música - jazz - de Stacey Kent).
Trabalhando no Feriado de Nossa Senhora dos Navegantes, como era de se esperar. Ainda cansado. Há muitos anos não "virava a noite" e seguia trabalhando o dia inteiro. Fiquei TRINTA E OITO horas sem dormir, pois além de não dormir fui para o Aeroporto às 5:30h da matina. O Rio de Janeiro (onde só vou a trabalho) continua lindo; já diz a música. Mas em compensação, "daquele jeito": congestionado, quente, agitado. Trabalhei muito em aeroportos e nos aviões (quatro!) que peguei nesses dias; São Paulo e Rio.
O filme SENTIDOS DO AMOR; cujo título original é Perfect Sense ("sentido perfeito") é uma fábula comparável a Ensaio Sobre a Cegueira. Não vou chamar de "plágio" ao filme baseado no livro de José Saramago, mas é quase uma "homenagem".
Segundo consta, ele irá chegar DIRETO EM DVD, portanto desde logo digo: faça plantão na frente da locadora, pois vale a pena.
Não se deixe enganar pelo título calhorda em português (que uma crítica que li chamou de "criminoso", de tão tendencioso e ruim), pois ele sugere uma comediazinha romântica; sentimental e comercial. E não é.
O filme, ainda usando a comparação com Ensaio Sobre a Cegueira é uma crítica declarada à Humanidade e com uma tendência apocalíptica e sobre o amor fraternal (ou o desamor) entre os seres humanos. Porém aqui sob o enfoque (belo, muito belo) também do AMOR ROMÂNTICO.
A médica epidemiologista Susan (EVA GREEN) se recupera de um romance mal sucedido. "Eu só escolho os cretinos", ela diz. Um dia um dos seus pacientes aparece com sintomas pouco peculiares: após uma crise de choro, perde completamente O OLFATO. Começam a surgir, no mundo inteiro, casos idênticos.
E aqui a coisa adquire (pelas imagens mostradas no filme) um caráter de documentário, pois mostra pessoas na África, no Oriente, na Europa, provavelmente (não identifiquei) também na América do Sul.
E a síndrome não-identificada (suspeita-se de vírus, terrorismo, capitalismo exagerado, sem qualquer conclusão segura da Ciência) se espalha. Antecipando a perda de cada SENTIDO, as pessoas têm crises incontroláveis de emoção: raiva, euforia, choro, vontade de comer.
No meio dessa confusão a doutora Susan conhece o chefe de cozinha Michael (EWAN McGREGOR, ator do qual nunca gostei, mas que há alguns filmes sou um dos seus fãs declarados). Ela o trata como "mais um cretino", já que como a maioria das médicas é uma mulher prática e fria. Sem contar que está desiludida com o amor. Mas ele é o "engraçadinho" romântico e a afinação afetiva entre eles é perfeita; sobretudo por um esforço do personagem dele.
Há cenas bacanas de entendimento amoroso entre os dois. Numa cena de cama ele pergunta "vamos nos ver amanhã de novo?". Ela ri e responde "provavelmente". Ele então pergunta, sem rodeios: "e estamos ansiosos?". Impagável.
Aos poucos o mundo vai se tornando um caos, pois depois do olfato as pessoas perdem o GOSTO. Para quem trabalha num restaurante, isso é uma tragédia. E o improviso é a tática, pois se você não sente mais o gosto dos alimentos; que haja "sensações" ao comer (crocante, macio, líquido, áspero), coisas das quais você não se dá conta ao comer alguma coisa e o filme nos lembra disso.
Uma das cenas mais românticas e que seguramente mais nos alerta para esses fatos corriqueiros (sentir o gosto das coisas) é quando os dois, Michael e Susan, nus numa banheira, passam a COMER (sem sentir o gosto) espuma de barbear e um sabonete, pelo simples prazer de sentir a textura dessas coisas na boca.
Claro, a lição óbvia é "podemos perder tudo, mas não o toque, a proximidade e o calor da pele do outro, e o amor". E esse amor, como eu disse antes, é explorado sob o ponto de vista fraternal (amigos, num abraço) e também afetivo-sexual.
Aos poucos, depois de um ataque de cólera, as pessoas começam a perder também a AUDIÇÃO. Daí para perder a VISÃO é apenas um passo. Estamos (nós, seres humanos), absolutamente desamparados. E uma cena de pessoas andando na rua, às cegas, em "trenzinho" (um com a mão sobre o ombro do outro), nos remete DIRETAMENTE a Ensaio Sobre a Cegueira, já citado.
O filme, que não me entusiasmou muito quando li a sinopse, me surpreendeu pela fábula que encerra. E a lição mais óbvia, de que apenas o AMOR pode nos salvar disso tudo.
Não perca. É de arrepiar. E de assistir duas vezes.
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