PERSONAGENS DE FILMES (E DE LIVROS) REAIS.

Com esse nariz e esses olhos completamente inchados aí em cima (e não é de dormir), fica difícil distinguir quem seja o RODRIGO MINOTAURO, grande lutador de MMA e este blogueiro, depois de uns dois ou três socos levados na cara (dele).

A luta continua.

Como sempre me sói acontecer, os verdadeiros (e melhores) personagens que jamais eu consegui criar quando tinha o sonho (e foi um belo sonho...) de ser escritor,  estão na vida real. E aparecem na minha frente o tempo todo. Alguns são meio diferentes, mas na verdade nada têm de tão especial assim. Senão o simples e corriqueiro e inapelável fato de que viver já é, por si só, uma espécie de "auto-livro" (que se escreve sozinho) e constrói literatura da melhor espécie.

É o Trem das Cores de que fala o Caetano na música.

Bebi cerveja num quiosque vagabundo de beira de praia com o dono do quiosque e com um vendedor de picolé que estava de folga. O riso franco dos seus dentes completamente estragados nos igualou, porque na hora de falar besteira (ainda mais bebendo cerveja) e de ir ao banheiro, todo mundo é rigorosamente igual.

Na pousada de um argentino e de um uruguaio (suspeito que os dois homens fossem um casal, mas não tenho certeza), predominavam os hóspedes argentinos; nós éramos uns dos únicos brasileiros. Sempre tive facilidade de me enturmar com os vizinhos da Argentina, que chegam no Brasil meio desconfiados dos brasileiros e, por isso mesmo, andando somente com os próprios compatriotas deles. Eu sei como tratá-los. Aliás, basta tratá-los com respeito e considerando o fato de que no País vizinho ninguém é de axé, funk ou de bundas rebolando a nossa costumeira e vulgar breguice. De uma conversa que começou na piscina aonde eu estava sozinho com duas meninas argentinas (é gostoso ouvir as crianças falando em espanhol e conversar com elas), de 6 e 7 anos de idade, o papo se espalhou para os pais e demais argentinos que estavam por lá. Gente interessante, cruza a Fronteira. A mãe e o pai de uma das meninas (Ana Elisa, que eles pronunciam "elissa") eram, respectivamente, um historiador e uma socióloga, professores universitários; o pai barbudo e bem mais velho do que a mãe. Da outra menina (Maytena)os pais tinham a mesma idade (uns trinta; trinta e poucos) e pareciam dados ao esporte. A mãe, disse-me que agradava-lhe especialmente "el baile" (dançar).

Na mesma pousada, uma menina de 21 anos, sozinha, vivia conversando com alguém no computador. Descobriu-se, depois, que ela era do Nordeste (mas morando no Centro-Oeste) e que estava aqui "esperando o namorado". O namorado é gaúcho, bem mais velho e fazendeiro. Ele, segundo a própria, paga a conta dela na pousada. Ou seja, a moça deve ser a "teúda e manteúda" (gíria do Nordeste para alguém que é "tida e mantida" por Fulano) do malandrão, que deve ser casado (ela não disse e nem lhe foi perguntado, somos pessoas discretas) e estar com a família numa casa ou num hotel ali por perto. As meninas daqui de casa "adotaram" a moça com pena da solidão dela e a levaram para a praia com elas.

Numa outra pousada, uma aristocrática senhora (notava-se pela sua maneira de ser e de agir), minha vizinha de sacada, não hesitava em reclamar...do meu charuto! Ela sequer tinha a deferência de dirigir-me o olhar. Era como se eu não existisse. Assim mesmo, em alto e bom som, dizia "que charuto fedorento!" e entrava nos seus aposentos, os maiores daquela pousada. Desconfio que mesmo que eu fumasse um Hoyo de Monterey ela reclamaria da mesma forma. Além disso, o meu charuto era um cubano Guantanamera, que foi o único que encontrei por lá. Duvido que fosse malcheiroso. Gente que nasce em berço de ouro (ainda mais sendo gaúcha...) acha que está sempre em casa e é infinitamente mais mal educada do que um vendedor de picolés de folga, como aquele que eu referi no inicio desta postagem. Eu, devolvendo-lhe a má-educação, reclamei em alto e bom som das conversas inúteis que ela mantinha ao telefone, de manhã, enquanto tentávamos dormir. Ela nem respondeu, claro. Eu não existia. Mais um pouco e eu a mandaria tomar no cu, com aristocracia e tudo. Não foi necessário.

Personagens.

Afora isso, a luta continua.

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