FILME CANADENSE DE 2008 QUE É UMA SOBREMESA DE SENSIBILIDADE NO MEIO DESSA ENXURRADA DE FILMES BRUTOS E SEM SABOR: MAMÃE FOI AO CABELEIREIRO (filme em DVD).

O filme canadense MAMÃE FOI AO CABELEIREIRO (em francês, língua também falada no Canadá, Maman est chez le coiffeur), que é de 2008, é de uma sensibilidade aguda. Sobretudo por conta da inocência que a vida adulta destrói nas crianças e nos adolescentes. Em todos nós.

O filme é contado pela visão da adolescente Elise, filha mais velha de um casal que tem três filhos. É uma família feliz até a mãe descobrir que o pai, um médico, é gay e anda saindo demais com um amigo com quem joga golfe e vai pescar.

Considerando o contexto da época, que é o ano de 1966, a mulher "pira" e resolve ir embora, abandonando marido e filhos. Deixa o Canadá e vai ser jornalista em Londres. Daí o título do filme. As crianças sempre usam isso como desculpa, a cada vez que alguém lhes procura a mãe, dizem: "mamãe foi ao cabeleireiro", o que é uma desculpa e também uma defesa nas suas inocências.

O pai também não compreende a sua própria condição sexual e não aceita que a mulher lhe abandone. Provavelmente se acha um "doente" na época. Mas, justiça seja feita, segue cuidando dos filhos com o amor e com o afeto que aos pais (varão, homem) cabe sentir.

A filha mais velha (que é quem "entrega" a condição do pai para a mãe); certamente o personagem principal do filme, faz o papel "dos olhos do espectador" no filme e é também a figura mais pungente. Sou suspeito. Tenho uma filha adolescente por quem sou absolutamente apaixonado e tento imaginá-la, numa circunstância assim, sofrendo e enfrentando um mundo para o qual certamente um adolescente não está preparado.

Adolescentes - e eles são o meu dia-a-dia - "pedem socorro" para os adultos que estão ao seu alcance. Um amigo da minha filha, cujo pai é um engenheiro brasileiro que trabalha na China (indo e voltando a Porto Alegre algumas vezes por ano), disse à mãe que "nos adora". Mantemos uma relação legal de amizade com o guri (que vive aqui em casa). Dou-lhe filmes e ele também me indica, segundo o gosto adolescente dele, também outros filmes. O guri gosta da gente a ponto do pai, na sua última volta da China, trazer presentes para nós de lá. Ou seja, um pai ausente é "temporariamente substituído" por outro; desde que esse outro acolha o adolescente. Minha filha, modéstia à parte, é afetivamente muito segura e não procura "pais emprestados" por aí. Mas vários amigos e amigas dela fazem isso, aqui em casa.

A menina do filme não tem a quem pedir socorro, a não ser a um homem surdo-mudo que mora sozinho na beira do rio, onde vive fazendo iscas para vender e também pescando. O irmão dela "do meio" gosta de construir carros de brinquedo para pilotar. O irmão mais novo é um menino inteligente mas com dificuldades de relacionamento, a ponto de - na época - ser chamado de "retardado".

O filme é sobre a dor de crescer; uma dor lírica de certa forma. E sobre a dor da distância, e do amor que não se pode resolver; nem que se queira. Há momentos em que é bem perceptível a solidão e o abandono da menina, metida num mundo em que as coisas não podem ser resolvidas. Ou que ela não sabe como resolvê-las. E sobre o vazio enorme que há entre aquilo que se efetivamente sente e o que verdadeiramente chega a quem é objeto desse sentimento.

MAMÃE FOI AO CABELEIREIRO é um filme e uma lição sobre os danos que a gente pode causar no afeto dos outros. Sobretudo naqueles cuja alma é mais pura, ou mais "branca" (no sentido de "inocente", por favor, não se trata de racismo) do que a nossa.

Veja o filme.

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