AINDA O PLANETA ATLÂNTIDA.

(Ambiente: vinho Colheita Tardia, músicas diversas)

A praia é um espaço democrático. Na praia, todo mundo é irreversivelmente feio. Está todo mundo seminu, e qualquer imperfeição é perceptível. Não adianta querer disfarçar. O que mais espanta, em quem tem auto-crítica (é o meu caso), é justamente o espanto com a própria feiúra. A gente nunca pensa que é "tão feio assim" (espelhos enganam, sobretudo os espelhos de provadores de lojas)e, quando vai ver, se é feio mesmo. Pra caralho. Como dizia um amigo meu da faculdade se referindo aos outros (ele, ao contrário disso, se achava um supra-sumo da beleza), somos verdadeiros "estilhaços de aborto". Ou seja, o que sobrou de um parto clandestino. O que de certa forma consola, nesses casos, é que a maioria dos outros que estão na praia são MUITO MAIS FEIOS (e, sobretudo, mais gordos ou barrigudos) do que a gente.

O PLANETA ATLÂNTIDA (ocorrido há uma semana atrás) é, como eu já havia visto numa edição anterior, mais um espaço de delírio coletivo. Claro, como tudo o que só ser "coletivo" traz, há porcarias solenes e adoradas por milhares de gaúchos (e brasileiros) cujos cérebros (e cultura, e gosto pessoal) são do tamanho de uma ervilha. Falo de Ivete Sangalo; Michel Teló e Luan Santana, por exemplo. Pagar R$ 240 por pessoa num "camarote VIP" para assistir manifestações rasteiras de música MUITO VAGABUNDA e sem qualquer razão de ser como os citados (dentre outros) é simplesmente rasgar dinheiro. Mas eles vêm incluídos no pacote, juntamente em outras supostas "sofisticações" (que são o outro extremo da burrice coletiva). Falo do rapper e DJ Sean Kingston, um americano que, já clareando o dia, rodou músicas para as supostas 40 mil pessoas que estavam lá como se estivesse num clube de Miami com apenas 500 pessoas: gritando o tempo todo uma mesma palavra incompreensível (não sei qual é justamente porque é incompreensível, né cabeção?). Acho que ele gritava "gueto", mas não tenho qualquer certeza. E acho que àquela hora, passando das quatro e meia da madrugada, ninguém tinha certeza.

O ingresso já compensa na entrada de LULU SANTOS. Lulu neste ano optou por um visual "bicha irônica", de gravata (estampada) num pescoço sem camisa e ocasionalmente de chapéu. Com os olhos pintados por grossa maquiagem (rímel, sombra), cantou o mesmo de sempre, há 25 anos. Não importa, estava bom como nos Anos 80. Apesar de se fazer acompanhar por uma "funkeira" carioca de cabelos vermelhos e se achando gostosa (não era), tudo ficou mitigado pelo fato de Lulu ser um "dos nossos", daquela citada Geração Anos 80.

Também o CAPITAL INICIAL foi triunfal, orgásmico, apoteótico. Eu fui lá só por causa deles. No ano passado por problemas diversos, apesar do ingresso comprado, não assisti ao Capital. O vocalista Dinho (minha idade, 47 anos), parecia tão "transtornado" (não vou dizer que estava "chapado", mas provavelmente estava) que errou várias vezes a música e o tom. Jogou-se sobre a platéia num vôo espetacular por duas vezes (o Multishow mostrou tudo ao vivo). Mas estava, como sempre, inspiradíssimo e feliz. Suas palavras profundas de sempre ("é foda" ou "do caralho") não importaram tanto, porque a gente foi lá pra gritar que "chove e chove e chove..." com a música  Primeiros Erros. E choveu mesmo, em alguns momentos tivemos de usar as "capas" (na verdade "sacos") que nos venderam na entrada da multidão.

Por fim, alguém que não é da minha geração, mas que passou raspando nela. Falo de CHARLIE BROWN JR., voltando a fazer shows com a velha formação (não conheci a formação antes desta). Os adolescentes são simplesmente SIDERADOS por eles, é como se fosse uma religião. Eu estava bem na frente, quase no palco, por causa da minha filha. E os adolescentes ficam simplesmente ENLOUQUECIDOS com o Chorão (o vocalista) que tem quase 40 anos de idade mas que se veste como um skatista de 17. Minha filha já havia ido em dois ou três show deles na madrugada de Porto Alegre. Sozinha. Agora, vendo de perto, e na praia, eu entendo a loucura da gurizada. Os caras são simplesmente CARISMÁTICOS. Os caras não. O Chorão, o vocalista. Vestido como alguém meio "especial" (gordo, um bermudão arrastando no chão, tênis e meias levantadas na canela, boné virado pra trás), no visual parecia que Chorão acabara de sair da APAE. E também, é claro, de "fumar unzinho", olhos brilhantes. Mas gritando mensagens MUITO MELHORES do que o Dinho do Capital (que é um "senhor" da minha idade), Chorão proclamava que "vocês são a minha família" ou valorizando questões como família, trabalho e luta por dias melhores. Mensagens bacanas, do tipo "me fodi muito na vida e agora estou aqui, com esta multidão me assistindo". É uma espécie de Legião Urbana dos dias atuais. Simplesmente incrível. E quando ele MANDAVA a gente "pular" ou "gritar" a gente, eu e os adolescentes, pulávamos e gritávamos. Felizmente a academia e a pista do CETE ali no Menino Deus me ajudaram nessa tarefa que se revelou ingrata para alguns pais (havia vários) que não pulavam um milímetro além do chão, foi impossível para os "véios gordinhos". Eu pulei o tempo todo. É quase um "arrastão do bem". Havia, claro, crianças de 14 ou 15 anos fumando maconha ao seu lado. Mas os pais não estavam junto. E com a minha filha, que não fuma nada e que só bebe quando sei (ou ela me avisa), tudo bem, eu estava junto com ela. Sou Chorão e Charlie Brown desde que nasci, lá nos Anos 60, quando eles nem pensavam em surgir (e nem nascer).

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