A VIDA, O AMOR E A MORTE DA ARTISTA VIOLETA PARRA: VIOLETA SE FUÉ A LOS CIELOS (filme fora de circuito).

Há outros filmes que estão na frente da "fila" para ser comentados, mas como acabei de assistir a VIOLETA SE FUÉ A LOS CIELOS ("Violeta se foi aos céus"), aproveito para antecipar este filme chileno de 2011 que, dizem, concorrerá ao Oscar de Filme Estrangeiro representando o Chile. O interessante é que naqueles créditos de abertura do filme, onde normalmente  por carência de recursos aparecem uns DEZ OU QUINZE produtores associados que o financiam, lá está a nossa brasileira Ancine com as cores do Brasil. O que me faz presumir que alguns recursos brasileiros ajudaram a produzir "la película".

O filme - baseado no livro escrito pelo filho dela, Ángel Parra -  conta, desde a infância, a vida de VIOLETA PARRA; cantora, compositora, poeta, tapeceira e pintora que foi um ícone latino-americano, sobretudo muito usado (depois da sua morte) pelas bandeiras socialistas e comunistas. Aqui no Brasil (ou no Brasil e Argentina) ela teve a música Volver a Los 17 gravada por MILTON NASCIMENTO (alguém ainda se lembra dele?) e MERCEDES SOSA.

Violeta era uma meio-indiazinha chilena que nasceu em 1917, filha de um professor e músico do Interior do Chile, numa região bem pobre. A partir dos 9 anos de idade, e por necessidade (o pai morreu), passou a empunhar a viola (guitarra, em espanhol) e, de forma um tanto auto-didática e por certo muito instintiva, começou a fazer das diversas artes a sua forma de expressão.

De gênio difícil e absolutamente impetuosa, aos poucos foi conquistando não apenas o público chileno como o mundo, sobretudo ligado à ideologia comunista. Morou em Paris em dois períodos diferentes. Foi à Polônia e a diversos outros países.

Ela, na verdade, era uma daquelas comunistas forjadas na fome e não em partidos políticos. Da mesma forma tornou-se música e cantora, assim como pintora, sem cursar qualquer escola. Portanto eram os seus sentimentos que lhe moviam, já que não tinha qualquer escolaridade.

O filme não é leve, justamente porque é latino-americano (são sempre filmes carregados de emoção) e voltado para a vida de uma pessoa que teve uma existência difícil até o fim. Ignorada pela Ditadura de Pinochet (que se instalou depois da sua morte), mesmo antes daquele General canalha o Governo do Chile não deu muita acolhida a Violeta, sendo mostrada no filme uma ocasião em que, após uma apresentação num palácio governamental, Violeta é convidada pelo anfitrião a comer NA COZINHA, com os empregados.

Ela, como não levava desaforo para casa, saiu do lugar xingando a todos de "surdos", numa alusão a que não sabiam ouvir o seu protesto que, na realidade, representava o protesto do povo pobre e camponês do Chile. Nesse aspecto, a música dela não era do tipo que me interessa muito e, creio, apesar do nítido sentido social, foi utilizada demais numa época panfletária que já ficou para trás. É nessa hora que volto a invocar Milton Nascimento e Chico Buarque aqui no Brasil. Se numa determinada época eles representavam protesto, hoje uma música calcada naquelas características pelas quais eles ficaram conhecidos meio que perdeu a razão de ser. No caso de Violeta Parra também. Isso sem contar que a música dela era muito mais "artesanal" do que a dos brasileiros; uma música do tipo daquelas que alguns bolivianos e peruanos (meio índios, como ela) cantam aqui em Porto Alegre, no Centro da Cidade. Uma música extremamente simples, ainda que bonita.

O filme é cheio de emblemas, todos eles de origem campestre. Gaviões devorando galinhas, crianças índias; bebês mortos; velhos camponeses que cantam.

No amor, Violeta Parra não teve muita sorte. E foi por causa dele, e também por desilusão com a arte, que ela morreu, aos 50 anos de idade.

Teve dois companheiros e com cada um deles teve dois filhos. Primeiro um casal; Ángel e Isabel (cantores e compositores vivos e se apresentando até hoje, com 70 anos de idade). Depois, duas filhas mulheres, das quais pouco se fala.

No entanto, não foi com nenhum desses dois "maridos" que teve o seu ápice afetivo (se é que existe isso, na vida de alguém). Com o suiço Gilbert Favre, estudioso de folclore latino-americano bem mais jovem e trazido para a casa de Violeta pela mão do filho dela, foi quando ela provou a intensidade do amor. Sabendo-se mais velha (e mais feia, segundo ela própria) do que ele, viveu bons e maus momentos com o suiço. Moraram alguns anos em Paris, até ele - cansado do gênio irascível dela - voltar para Genebra deixando-a com o coração completamente partido. É claro que essa tristeza foi transformada em músicas e composições; seu período mais fértil.

Na vida artística, resolveu criar uma "tenda" (uma espécie de circo de madeira) onde se apresentava e atraía, no inicio, intelectuais e interessados; estrangeiros e chilenos, que vinham vê-la tocar e cantar, ou comprar os seus quadros, assim como ouvir a outros artistas que ela convidava, sempre envolvendo o folclore. Ela chamava o lugar de "Universidade do Folclore". Apesar do sucesso do inicio, aos poucos a iniciativa foi minguando e se esvaziando, quase sem público. Isso, juntamente com uma nova reaproximação e mais um afastamento do suiço Gilbert, acabaram por desiludi-la.

E foi ali mesmo na "tenda" que Violeta, depois de ter cantado em vários países e de ter exposto seus quadros no Museu do Louvre em Paris; desiludida com o amor e com a arte, tristemente pos fim à própria vida, com um tiro na cabeça, em 1967.

O filme é do Diretor chileno ANDRÉS WOOD, de Machuca, filme chileno que já é um clássico como o nosso Pixote brasileiro e de tema semelhante.

VIOLETA SE FUÉ A LOS CIELOS  é um filme bem feito, mas meio pesado. Abaixo do trailer, uma entrevista da verdadeira Violeta (em francês, que ela aprendeu sem cursos!)

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