UM VÍDEO, UMA FRASE: "QUANDO O MUNDO ACABAR, QUERO ESTAR DENTRO DO ZAFFARI" E ALGUNS PAPOS COM UM CANADENSE.

(Ambiente: cerveja Brahma Extra e um charuto Fonseca, música de Billie Holiday, no disco I Wished on The Moon)

"Quando o mundo acabar, quero estar dentro do Zaffari". Esta frase, para quem é gaúcho e me lê, tem algum significado. Para alguns paulistanos também, já que a rede de supermercados Zaffari instalou-se no Bairro da Pompéia em São Paulo com um hipermercado Bourbon (lá grafada com acento no primeiro "a", por causa da pronúncia, tendo se tornado Záffari). E, ao contrário do que possa parecer, essa frase tão radical não partiu (ao menos não que eu saiba) de nenhuma estratégia de marketing do Grupo. Ela foi dita no tom divertido que caracteriza o músico NICO NICOLAIEWSKY, da dupla Tangos e Tragédias. A frase do Nico resume, de certa forma, o apreço do público gaúcho pela Rede e pelas gostosuras (e qualidade, e bom atendimento) que se encontra nas suas lojas. Além disso, bem ao gosto desse bairrismo estapafúrdio que existe aqui, e embora tenha se instalado em São Paulo, a Rede Zaffari é algo "tipicamente gaúcho". E os gaúchos adoram falar sobre algo tipicamente gaúcho.

Pois corria um boato aqui na minha rua (ou na minha Avenida) que seria construído um Zaffari aqui ao lado do nosso Condomínio, para delírio e incredulidade gerais. Foram sendo compradas, uma a uma, umas cinco casas e seus enormes terrenos contíguos ao nosso Condomínio. As casas foram sendo parcialmente demolidas. Além disso, um ou dois guardas uniformizados montavam guarda dia e noite no conjunto (grande!) de terrenos que se formou. O que significava que algum grupo organizado (e grande), de fato, havia adquirido as propriedades. O nosso zelador, conhecido por sua "personalidade comunicativa e bem informada" (traduzindo:um grande fofoqueiro que pergunta, se mete e sabe da vida de todo mundo) me garantiu (eu também sou fofoqueiro, sócio do mesmo clube que ele) que as contas de energia elétrica das casas ao lado já estavam vindo em nome da Companhia Zaffari e não me pergunte como ele sabe disso; provavelmente alguma conexão com o carteiro, somos um grupo unido.

Nesta semana, finalmente, as máquinas começaram a por completamente abaixo as casas. Nessas "casas" está incluso o prédio do velho e barulhento Clube Satélite Prontidão; com mais de 50 anos de existência, característico - segundo dizem - por ser um ponto de diversão dos negros, mas que também acolhia brancos, e todos eles espalhafatosos, nas noites de sábado. Já vai tarde, aliás, por causa do barulho. Cogita-se, ainda, que o Zaffari teria também uma companhia construtora e que seriam construídos prédios residenciais e não um supermercado. Torcemos por um supermercado pois, como eu disse, é praticamente DENTRO do meu Condomínio (enxergo as máquinas daqui da minha janela, enquanto escrevo) e as comodidades (compras; uma cafeteria, lojinhas) de um Zaffari aqui, para gente que fica acordado até tarde como nós, seria o Paraíso. Se for verdade e se o mundo acabar em breve, provavelmente eu esteja dentro do Zaffari, quando isso acontecer.

Ontem, no vôo noturno que me trouxe de Brasília, eu havia percebido no embarque um estrangeiro gordinho e avermelhado conversando com um dos comissários e perguntando, em inglês, ao mesmo comissário, se esse último se lembrava dele ("Do you remember me?") . 

É claro que o tal estrangeiro sentou-se justamente ao meu lado.

Simpático,  considerando que ele sentou-se na janela e eu no corredor, e que na poltrona entre nós dois não havia mais ninguém, ele quis ser amistoso e me disse e inglês que nós éramos uns "sortudos" ("we are lucky"), pois poderíamos abrir os braços, o que demonstrou-me num gesto. Eu concordei. ("oh, yeah!)

Não falo inglês. Ou pensei que não falasse. Tal como ocorre no espanhol (esse sim, falo e escrevo), sou um autodidata. Aprendi sozinho; lendo e perguntando e pesquisando na Internet, ao longo de vários anos. Jamais fiz qualquer curso. Só que o espanhol eu já exercitei falando diversas vezes.

Meu inglês não é ruim. Nas provas de admissão ao mestrado que fiz em algumas universidades, sempre passei nas provas de proficencia em línguas, traduzindo textos sem dicionário. Várias palavras em inglês me escapam, mas pelo seu contexto, eu entendia o resto da frase. Isso escrevendo, claro. Falar (e pronunciar) é outra história.

Quando ele sentou-se ao meu lado no avião, e fez tal comentário, confesso que me senti um tanto tímido (o que não sou há anos) e até incomodado (ou "atrasado") pelo fato de que eu não conseguiria conversar com o homem, que parecia disposto a estender o assunto. Irritou-me a minha própria limitação, naquele momento. Talvez seja uma das únicas situações, hoje, na minha idade, que me deixam intimidado: falar, em inglês, com um estrangeiro.

Como percebeu que o assunto não evoluiria comigo, o homem resolveu dormir. E eu, de computador em punho, resolvi romper minhas limitações. Minha idéia era a de ESCREVER, no editor de textos, as frases em inglês, e conversar com o estrangeiro através da tela, como se fosse um surdo-mudo.

Depois mudei de idéia. A partir de um vídeo que exibiam no vôo, sobre luta-livre no México (tóóóiiinnn!!!) resolvi "puxar assunto" com o estrangeiro.

Incrivelmente, e para minha própria surpresa, conversamos animadamente durante as duas horas e meia do vôo, em inglês (ele não falava uma única palavra em português). Obviamente que em alguns momentos eu devia lhe parecer um indio daqueles dos filmes ("me Tarzan, you Jane") e não sabia qual a palavra correta a utilizar, mas consegui formular frases inteiras e até piadas!!!

O sujeito não era americano dos Estados Unidos, como eu pensava, embora quando eu lhe perguntei ele respondeu "sim, sou americano, do Canadá". Porque nós, brasileiros, também somos americanos do Sul e eles consideram "americano" não apenas quem vive nos EUA, mas todos os que vivem nas Américas em contraposição a quem vive na Europa, que é - portanto - europeu.

Canadense de Quebec e Montreal (vídeo acima, e naquele País se fala tanto o inglês quanto o francês, pela dupla colonização), Scott (ele me disse achar engraçado que os brasileiros pronunciam "scotch" ou "scotchi", como seria um whisky, a bebida) estava numa estranha conexão entre Brasília,Porto Alegre, Miami e o Panamá. Segundo ele, fazia todas essas "voltas" de avião porque, assim, custava METADE DO PREÇO do que ir direto ao Panamá.

Ficamos amigos "da vida inteira". Mostrou-me fotos (neve, ursos, um hotel-castelo na cidade onde vive, o Chateau Frontenac), falou dos sete (!!) filhos, da profissão, do Canadá. Eu o convidei para conhecer Porto Alegre com a minha família, já que ele esperaria até as 3h da madrugada no Aeroporto até tomar o avião que o levaria ao Panamá. Ele recusou, porque disse sentir-se muito cansado. Mas agradeceu o meu gesto com tal sinceridade (apertando a minha mão diversas vezes e desfiando uma série de frases em inglês, chamando a atenção dos demais passageiros que desembarcavam), que parecíamos ter viajado juntos desde o Canadá.

Meu inglês, aprendido também com os filmes que assisto ("fuck you, bitch!"), serviu para alguma coisa. E é melhor do que eu pensava. O canadense, provavelmente sendo gentil e aceitando as minhas desculpas, disse que eu falava muito bem, perguntando se eu havia estudado inglês. Seguiremos trocando correspondência por mail. Convidou a mim e à minha família para visitá-lo no Canadá. E quando voltar ao Brasil disse que irá me procurar.

Bacana.

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