UM VÍDEO DE ADVOGADO E ALGUNS COMENTÁRIOS SOBRE A NOSSA PROFISSÃO.

Quando se é advogado, e eu tenho o sido por mais de 25 anos (já era antes de me formar na Faculdade, quando já exercia a profissão) se aprende que nem sempre ganhar a causa é possível. E que às vezes encontrar-se a melhor solução (ou a menos ruim) para um litígio já é um avanço e, não raro, um alívio.

Há anos tenho uma (dentre outras) causa que especialmente me incomoda porque foi marcada, desde o inicio por certa (não completa) injustiça. Daqui a pouco volto a ela.

A injustiça é algo que incomoda a quem meteu-se nesta profissão originalmente por vocação, amor e um ideal meio romântico de fazer justiça. Hoje, macaco velho, já aprendi que essa quimera, num País como o nosso (e até no mundo), se esfumaça diante da realidade. Mas é nesse contexto de descrença que cabe acreditar que a solução menos ruim pode nos contentar, desde que o cliente também passe a acreditar nisso.

Essa causa a que me referi a alguns parágrafos atrás, me fez perder horas de sono. Por alguma razão, os juízes que trataram dela, aqui no Estado do Rio Grande do Sul (considerado um dos Judiciários menos contaminados pela corrupção, senão o menos sujeito no País, com o que eu concordo plenamente e me orgulho) não a compreendiam ou compreendiam apenas uma verdade parcial dos fatos. Aceitaram e fundamentaram suas decisões no depoimento de testemunhas suspeitas (porque envolvidas até os ossos com a outra parte); não consideraram fatos relevantes; fecharam os olhos para questões primordiais.

Subi na tribuna com a beca preta de advogado, esperneei. Não teve jeito. Perdemos. O nosso Judiciário (gaúcho), malgrado ser indiscutivelmente sério, peca por um certo corporativismo que dificilmente permite que reforme decisões dos seus pares. O Juiz de Primeira Instância decide e o Tribunal, na Segunda Instância, dificilmente não apóia a decisão do primeiro. E o próprio Tribunal parece, em alguns casos, um tanto "orgulhoso" das suas próprias decisões a ponto de não querer rever seus erros ou omissões. Um problema, portanto, que não decorre da má-fé, mas do orgulho. E o excesso de orgulho, aqui, acaba por ser prejudicial. Isso em todas as esferas desse gauchismo exagerado (contra o qual, aliás, esbravejei na tribuna do próprio Tribunal, quando me foi dada a oportunidade).

Perder é da profissão. Mas perder tendo a convicção de que o Direito não foi avaliado na sua inteireza pelos juízes que o apreciaram é frustrante. Sobretudo quando se percebe que, como eu disse antes, isso não foi devidamente feito por orgulho de quem apreciou.  Uma tristeza,  para o advogado que gosta do que faz. A questão é muito mas moral do que financeira, embora haja reflexos nessa esfera (para o cliente, mas é como se meus fossem tais reflexos).

Ainda não entreguei os pontos, nessa causa. Sigo lutando. Mas agora plenamente consciente de que estamos estertorando na discussão e que ela dificilmente  será revertida. Tecnicamente, é quase impossivel fazê-lo. Apesar disso, eu só dormiria tranquilo se tivesse, intimamente e nas mesmas noites de sono que seguidamente perco, a CONVICÇÃO de que fui às últimas consequências e aos últimos recursos cabíveis e legalmente aplicáveis.

Hoje, ao conversar com o cliente, ele - justamente ele, o maior interessado e quem vai pagar a conta - tratou de minimizar a questão, como se consolasse a mim, dizendo que "não se pode ganhar sempre", ocasião em que estudamos as alternativas para, mesmo com novos recursos jurídicos que redundarão no vazio, minimizar o impacto financeiro do problema. Felizmente, é um cliente empresarialmente bem sucedido e aquele dinheiro, que resolveria alguns problemas na minha vida, para ele não representa maiores problemas. Felizmente mesmo. Porque a minha frustração e as minhas mãos  atadas eu considero bem maiores do que o prejuízo financeiro do meu cliente.

Não importa se ele "pode" ou se é um publicitário bem sucedido e acabou de voltar da Europa. Não importa se vive uma vida confortável. Se alcançou tudo isso é porque tem os seus próprios méritos. Como eu digo sempre, ser rico ou ter dinheiro não é vergonha para ninguém, se foi conquistado honestamente.

E a minha obrigação é a de tentar o melhor para ele, a fim de que eu faça jus ao meu título de advogado. Um título que recebi há uns 20 anos (o título, já trabalhava antes nisso), no auditório da OAB do Rio Grande do Sul, de pé, com a mão no peito, inflado de orgulho, cantando o Hino Nacional, tendo por única testemunha a minha esposa (os pais estavam no Interior do Estado; minha filha não havia nascido ainda).

Com todas as responsabilidades que avoco para mim, e a firme convicção de que lutei e estou lutando com todas as armas de que disponho, consegui ficar aliviado pelo fato do cliente ter desviado a conversa para assuntos amenos como livros e filmes (como fazemos sempre), minimizando o meu desconforto.

Nessa hora lembro sempre de EVANDRO LINS E SILVA, advogado que entrou na Academia Brasileira de Letras em 1998 e que sempre tomei como modelo de luta.

No vídeo acima, ele dá uma entrevista na condição de membro da ABL, durante a eleição de Paulo Coelho. E aborda diversos temas, embora a entrevistadora seja meio inábil.

Aquele advogado, morreu aos 90 anos de idade (em 2002), de maneira inglória (diante da sua grandeza) ao sofrer uma queda acidental no Aeroporto no Rio de Janeiro. Ele proferiu uma frase que reproduzi no meu livro O PUBLICITÁRIO LEGAL, junto com uma dedicatória que fiz a ele: “O direito da pessoa humana supera tudo, eu acho. Além disso eu, como advogado, não estou sendo o juiz da causa, não estou fazendo um julgamento, estou patrocinando um interesse. E no patrocínio desse interesse, desde que a minha conduta seja exata, correta, legal, decente, limpa, ela tem que ser entendida e respeitada. Eu não vou pleitear um absurdo.” (no seu livro O SALÃO DOS PASSOS PERDIDOS).

Por essa dedicatória recebi, na época em que o livro foi publicado, uma agradecida e gentil carta do filho do Dr. Evandro, o também advogado no Rio de Janeiro (e em algumas causas polêmicas por lá) PAULO LINS E SILVA.

A conduta do advogado; mesmo sendo legal e decente, nem sempre é respeitada pelos Tribunais. Mas se o cliente nos respeita e confia, já estamos com uma medalha no peito por honra ao mérito.

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