FOR LOVERS ONLY: UM MAGNÍFICO FILME PARA ROMÂNTICOS, SOBRE O INEVITÁVEL E O PROIBIDO, QUE NÃO TORNA O AMOR MENOS INEVITÁVEL (filme fora de circuito).
(Ambiente: cerveja Brahma Extra. Música La Noiyée, de Serge Gainsbourg, da trilha sonora do filme comentado. Veja o trailer abaixo, onde o próprio Gainsbourg "apresenta" a sua música)
Certas coisas geram efeitos na gente. Uma bebida, um perfume, uma música e até o antiinflamatório; que venho tomando de oito em oito horas para aliviar-me a dor em algum ponto entre as costas, o nervo ciático e a vértebra lombar, causa-me sonolência.
Um filme também causa efeitos e eu ainda estou sob o efeito de FOR LOVERS ONLY, assistido na madrugada. Há semanas tenho o filme e, como tenho pelo menos mais oito para assistir, fui deixando ele para depois. Faltam-me adjetivos para descrever essa obra de arte. Há muito tempo eu não via um filme assim.
Primeiro, a história "técnica" da filmagem, em si.
O filme, pelo que se sabe, nasceu para ser disponibilizado gratuitamente na Internet e em alguns momentos você irá encontrar referências a ele como "curta-metragem", o que ele não é. São mais ou menos 85 minutos de filme. Por conta dessa sua natureza de "filme viral" (quem trabalha com Publicidade sabe do que eu estou falando), acabou sendo o mais acessado segundo alguns critérios. E daí virou sucesso. Ele foi rodado em apenas doze dias e teve como orçamento apenas as despesas de viagem, hospedagem e de alimentação dos dois atores e da reduzida equipe de filmagem (duas pessoas). A atriz americana STANA KATIC (que faz o papel da bela Sofia), aqui no Brasil quase desconhecida mas um ídolo das séries americanas, simplesmente NÃO COBROU NADA pela sua participação no filme, por amizade aos diretores, os irmãos Polish.
MARK POLISH escreveu o roteiro e interpretou o protagonista, Yves. Seu irmão Michael Polish dirigiu o filme. É filme com "câmera na mão" (sem grandes efeitos, quase amador, mas com magnífica fotografia e paisagens), rodado EM PRETO E BRANCO (salvo uma contrastante cena colorida no final), espécie de road movie ("filme de estrada") que se inicia em Paris e cruza a França, da Normandia a Saint Tropez.
Agora, a história do filme, em si.
Filmes, livros e quaisquer outras obras de arte causam opiniões extremamente SUBJETIVAS de quem opina. Estou ciente disso. E aquilo que poderá aparentar uma maravilha para mim poderá significar uma bosta para outros.
No entanto, a média geral e minimamente sensível dos seres humanos gosta de filmes românticos. Esse é, definitivamente, um digno e apaixonado representante dessa categoria. Não importa qual o grau de dificuldade ou de complicação do amor que uma história celebre. Amor é sempre amor, em qualquer lingua ou em qualquer situação. A vantagem de FOR LOVERS ONLY é a falta de pieguice romântica usual em filmes americanos, por exemplo.
Yves é um fotógrafo (casado,uma filha pequena) que foi contratado para fazer fotos de pontos turísticos da França. Não consegue, porque quer fazer fotos artísticas. Fica vários minutos deitado no asfalto fotografando não a Place de La Concorde, em Paris, mas o aspecto de um pombo morto na mesma Praça. Isso gera um conflito dele com a agente que o contratou. Sofia, que também vive com outro cara, é uma jornalista americana que vai à França entrevistar um fotógrafo famoso. Sofia e Yves já viveram uma história de amor no passado. E não sabem (um do outro) que estão na França naquela mesma semana. Estão cada qual na sua atividade, coincidentemente na mesma cidade.
Até que um dia, na rua, de uma Cidade imensa como Paris; depois de muitos desencontros ocasionais (onde passam um pelo outro sem encontrar-se) eles se reencontram por acaso.
Trocam cartões, constrangidos e com o desconforto próprio de quem já viveu algo intenso e que, por alguma razão (que sequer é dita no filme), se separou. Mas, se verá depois, não se esqueceram.
A imensidão de Paris e o fato de saberem um do outro na mesma Cidade acaba, fatalmente levando-os a marcar um encontro. Bebem um vinho juntos e depois disso Yves leva com ele a garrafa (vazia), como recordação. Conversam à beira do (Rio) Sena, quando Sofia pergunta a ele "o que estamos fazendo?". Yves responde "Conversando".
Não é difícil imaginar que, daí em diante, a natureza (ou o sentimento) os leva ao inevitável. E o inevitável é reviver o passado, "na nossa ilhazinha", como diz Sofia, referindo-se ao lugar (qualquer lugar, não-físico) onde eles, só eles, estejam juntos. Já não importa, na trama, para nós, os espectadores, o que eles viveram juntos no passado. E nem a razão pela qual terminaram o relacionamento. O que importa é que foi bom e que eles estão juntos, aqui e agora, revivendo mais um pouco desse romance. Numa viagem pela beleza da França.
Como Yves tem a incumbência profissional de fotografar a França, ele tem uma boa desculpa para viajar pelo País e quer levar Sofia (que deveria voltar no dia seguinte para os Estados Unidos) junto com ele. Ela liga para alguém (que saberemos depois quem é) e avisa: "vou seguir um fotógrafo, por alguns dias".
O filme é o resultado dessa entrega entre os dois amantes; na cama ou na rua, rodada na beleza e na simplicidade que só o preto e branco conferem à sutileza do filme. Quem enxerga as sutilezas do roteiro não precisa da cor, pois o filme é colorido por tais sutilezas.
Yves (ex-fotógrafo de moda) admite para Sofia que não consegue mais fotografar as "mulheres bonitas" pelas quais ela lhe pergunta, ciumenta. Então ele explica "Em todas elas eu via você. Seus olhos numa; sua boca na outra".
Nem tudo é idílico e romântico. A realidade de ambos aparece mesmo na "ilhazinha" que criaram para si. Yves atende aos telefonemas da esposa (ou nem os atende), afastado de Sofia, para que ela não ouça o que conversam. Sofia pergunta, olhando para a tatuagem no braço de Yves, onde está o nome dela que estava ali? Hoje há o desenho de um lobo encobrindo o nome de Sofia. "Foi preciso", ele diz. Sofia pergunta sobre a esposa de Yves, que reluta em contar sobre a mulher e sobre a filha. Mas conta. "Um dia eu acabaria sabendo mesmo", ela diz.
Mas também Sofia tem alguém. E tem uma tatuagem que conta isso para Yves. E é em pleno banho de banheira juntos, que a tatuagem de Sofia com o nome David, na coxa, aparece acidentalmente, como se Sofia, sem querer, tivesse chamado Yves pelo nome do outro. Um tapa na cara, e a atitude do ator e da atriz mostram essa decepção. Ela pede desculpas várias vezes, dentro da banheira. Yves se retrai mas admite para ela: "não posso dizer nada", porque sabe que também tem a sua vida real, ali, fora da "ilhazinha". Ela consola Yves dizendo "ele é o oposto de você. A última coisa que eu queria, na vida, era alguém que me lembrasse você. Mas isso foi uma piada, porque tudo me lembra você".
O filme é extremamente romântico e real. Romântico para quem gosta de romantismo, mas também real para quem gosta da realidade. Um show absolutamente impagável de interpretação.
Enquanto Yves dorme Sofia diz, em voz alta, olhando para ele, "um homem jamais irá me amar como você me ama" E nós, espectadores, encantados com a beleza do filme, admitimos isso junto com ela.
Um filme para se ver repetidas vezes.








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