FILME IRANIANO COM TINTAS OCIDENTAIS E COM A COMPETÊNCIA PARA GANHAR O OSCAR DE FILME ESTRANGEIRO, AO QUAL CONCORRE: A SEPARAÇÃO (filme de cinema).

Como eu já disse mais de uma vez aqui, chamar alguns "filmes-cabeça" de filmes iranianos é um costume que alguns cinéfilos têm para designar os filmes complicados; densos (ou pesadões); dramáticos e cinzentos, mesmo que tais filmes não tenham sido feitos no Irã.

O filme Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami (diretor iraniano de verdade), ficou MESES em cartaz em Porto Alegre como sendo o endeusado filme de um consagrado Diretor e eu, que vejo filmes às pencas (e bons filmes), considerei aquele filme UMA BOSTA INTRAGÁVEL, mesmo com a Juliette Binoche como protagonista-mulher. Ainda aposto que o sucesso daquele filme aqui em Porto Alegre deu-se muito mais pela colonização cultural que usualmente sofrem os nossos irmãozinhos gaúchos, do que pela qualidade do filme, em si.

Por isso, quando a Zero Hora de ontem, sábado, estampou no Segundo Caderno que o filme A SEPARAÇÃO, em pré-estréia em Porto Alegre, era uma "obra imperdível" (não exatamente com essas palavras) eu desconfiei.

Sei que o filme é forte candidato ao Oscar de Filme Estrangeiro (dando um chega-pra-lá até no nosso Tropa de Elite 2) e que ele ganhou o Globo de Ouro. Mas ainda assim fique desconfiado. E desta vez a Zero Hora não estava enganada.

Embora só agora esteja chegando aqui (assim mesmo, em pré-estréia), já estou com o filme em casa há umas três semanas. Mas como já assisti outros QUATRO ainda não comentados e tenho outros DOZE para serem vistos, fui deixando para depois. E ontem, na volta de um aniversário de um amigo comemorado num bar (sim, existe vida em Porto Alegre no verão), entrei madrugada adentro assistindo A SEPARAÇÃO.

O filme é como a Zero Hora disse. Ou seja, afasta-se dos filmes iranianos típicos e, ao invés de centrar-se num enredo "camponês" (ou rural), fixa-se unicamente na paisagem urbana de Teerã, suponho, a Capital, embora  não diga expressamente qual seja a cidade do Irã onde a história se passa.

O Diretor disse, ao receber o Globo de Ouro, que não tem dúvidas de que as grandes mudanças do País passarão pelas mulheres mas, desta vez, o filme não é centrado unicamente na "vitimização" (real ou não; justa ou injusta) causada pela Sociedade Iraniana (e árabe, de um modo geral) contra as suas mulheres. A feminista aqui em casa disse que talvez seja proposital, e o filme mostre os homens do Irã de uma maneira mais branda para amenizar a situação.

É certo que o papel preponderante no filme é das mulheres; há menos homens em cena. Como também é certo que elas (ou ao menos uma delas) estão, no filme, tentando mudar as coisas. Ao assistir, num filme de País Árabe, uma mulher de chador (aquele manto com que elas cobrem a cabeça, em todas as idades), e perceber que os chumaços que saem de baixo do manto dela são de cabelos pintados de ruivo (ou "vermelho"), é possível perceber-se que algumas mudanças estão ocorrendo por lá. Há alguns anos isso lá (uma mulher de cabelo pintado) era algo impensável, mesmo com a cabeça coberta.

No caso do filme A SEPARAÇÃO, o que menos conta, em si, é a separação do casal que dá título ao mesmo. Ao contrário, o que interessa são os efeitos e as discussões em torno dela.

Um bancário vive confortavelmente num bairro de Teerã (suponhamos) com a mulher (a que eu citei antes, com o cabelo pintado de ruivo) e a filha, de onze anos, e também com o pai, velho e com Mal de Ahlzeimer. O velho não fala muito, está meio catatônico, e precisa da ajuda permanente para tudo, desde ir ao banheiro até se alimentar.

O filme começa com A SEPARAÇÃO do casal. E a separação se dá por um motivo que, desde o inicio, mostra que o filme não possui a tradicional dicotomia que se espera dos árabes e da sua Sociedade: o homem dominador, contra a pobrezinha da mulher explorada. Não.

Eles estão se separando porque obtiveram um VISTO para viajar para fora do País (não diz para onde) e a esposa, professora (cabelo pintado, que dirige seu próprio carro) deseja aproveitar a ocasião para levar a filha para fora do Irã. Não deseja que a adolescente cresça numa Sociedade machista, etc. Ela não DIZ isso explícitamente no filme, mas esses motivos ficam subentendidos porque ela insiste que não deseja "criar a nossa filha aqui".

O marido, ao contrário, não se opõe a isso. E aqui já uma diferença: apesar de ser homem e criado numa Sociedade árabe, ele - nota-se - dá a elas "permissividades" (que aqui seriam perfeitamente normais) próprias dos ocidentais. É educado. Auxilia a filha nos deveres do colégio; brinca amistosamente com a adolescente e é profundamente carinhoso e respeitoso com a menina; a esposa trabalha e dirige automóvel e pinta o cabelo (como eu já disse antes). Com a mulher ele não é dado a muitos carinhos, mas, como eu disse, eles estão se separando. E estão se separando porque ele não quer deixar o País. Mas não por não desejar uma vida melhor para A FILHA no Exterior e sim porque não deseja (e nem pode) deixar O PAI sozinho, com aquela doença incurável. Ou seja, o homem é, também ele, uma VÍTIMA da chantagem sentimental involuntária do pai; além da mesma chantagem pela mulher e até, de certa forma, pela filha. Não é um santo. Mas pra bandido ele não serve.

Quando se separam, e a mulher ameaça ir embora sozinha (a filha só pode ir se o pai autorizar, pela lei deles), na verdade ela já COMBINOU ANTES com a menina (e aqui, mais uma vez, o homem sendo a vítima das mulheres) para "blefar" sobre essa saída de casa, a fim de convencê-lo. Então a menina sabe que a mãe não irá embora sem ela, mas finge que acredita que a mãe vai abandonar a ambos. E a mãe sai de casa. A menina, que já está avisada do "teatro", não faz qualquer gesto para conter a mãe. Já o marido, acreditando que fosse verdade, também não faz qualquer gesto para segurar a esposa. E, aqui sim, o machismo árabe (ou universal) fala mais alto: ele não dá o braço a torcer e deixa que a mulher se vá.

Nesse meio tempo, entra em cena, por causa da separação, uma empregada contratada para cuidar do pai velho e com Ahlzeimer. E a empregada, que tem um marido desempregado, vem trabalhar trazendo a sua filha pequena. E não conta para o marido desempregado que está trabalhando. E mais: está grávida. Um dia ela negligencia e vai ao médico. Como tem medo de que o velho doente fuja (já fugiu uma vez), ela o amarra na cama e sai. Quando o patrão (e filho do velho) chega em casa, encontra o pai caído da cama; ainda amarrado pelo pulso e passando mal.

Isso desencadeia uma série de acontecimentos que culminam com a expulsão da empregada de casa e, nesse ato de expulsão, o patrão dá nela um empurrão, escada abaixo, onde ela por causa disso, supostamente, perde o filho.

Aí mistura tudo e vira "filme de tribunal", ainda que um tribunal bem típico deles (e interessante para a gente conhecer, especialmente se você for advogado). Segundo nos mostra o filme, num tribunal iraniano as partes negociam seus direitos diretamente com o juiz, numa sala, como se fosse uma delegacia de polícia. Não há advogados. A cada um cabe fazer a própria prova dos seus direitos e as suas alegações e argumentos. Bem interessante. E mais: o juiz é justo e absolutamente rigoroso. Sem mais delongas, prende e manda soltar.

Tudo a partir daí, decorre da separação do casal. A empregada que perdeu o filho, apesar de ser uma mulher religiosa que jura sobre o Alcorão,  pode estar mentindo e ter perdido o bebê de outra forma. O marido desempregado é um suspeito em potencial de ter matado o próprio filho, por aparentar ser violento. Esse marido também age ativamente na trama, questionando o patrão que empurrou a mulher e ameaçando a todos. Mas também ele é uma vítima. Porque perdeu o filho e porque está desempregado.

O pai (patrão) que é bondoso com a filha, de certa forma também é um mau-caráter, porque USA e chantageia o amor dessa mesma filha para mudar o pensamento da mãe e do tribunal a respeito dele. Além disso, usa a doença do pai para causar piedade (e complacência) nos demais.

Ninguém é totalmente santo e nem é totalmente vilão, embora na história estejam presentes os já citados questionamentos sobre a Sociedade Machista do Irã ou da Cultura Árabe (que é bonita, aliás, e não essa vilania que os Estados Unidos tentam nos empurrar sobre eles); a religião, o feminismo exagerado; a relação opressiva de empregador-empregado; as relações familiares.

Esse é um filme iraniano que, salvo pequenas diferenças culturais, muito bem poderia ser ambientado no Brasil; no México ou na Alemanha.

O elenco é magnífico, inclusive o velhinho que faz o papel do avô com Ahlzeimer, que pouco fala durante o filme.

Mas o principal papel e que, na minha opinião, centraliza (ou polariza) as atenções em A SEPARAÇÃO é o da menina que é filha do casal que se separa; uma atriz adolescente que interpreta o seu papel com intensidade e competência. E que tem, com certeza, um belo futuro pela frente na profissão.

Não por acaso, o papel foi dado à FILHA DO DIRETOR do filme. Pela atuação dela, nota-se que ele foi pai ao dar-lhe o papel. Mas também deve ter sido diretor e extremamente rigoroso a fim de exigir dela o seu melhor. Conseguiu. Um excelente filme.

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