FILME FRANCÊS MUDO, QUE NA VERDADE É UMA HOMENAGEM ESCANCARADA AOS PRIMÓRDIOS DO CINEMA AMERICANO: O ARTISTA (filme de cinema).

(Ambiente: música de LEONARD COHEN com Famous Blue Raincoat; charuto (from Cuba) Fonseca e vinho branco (from Bento Gonçalves,Brasil) Colheita Tardia)

Curiosamente, o último filme do qual eu falei muito bem aqui (o belo e romântico FOR LOVERS ONLY, na semana passada) era um filme em preto e branco, o que hoje em dia não é muito comum. Antes daquele, o último do qual me lembro de ter comentado aqui foi Tetro, que FRANCIS FORD COPPOLA filmou na Argentina.

Esse O ARTISTA (The Artist, título original em inglês, embora o filme seja francês), além de ter sido filmado em preto e branco é também UM FILME MUDO.

Ele não tem muito o que ser comentado. A trama é uma homenagem ao cinema que se encerra em si mesma. E é uma homenagem ao cinema mudo, sim; mas sobretudo ao cinema AMERICANO da época de Ouro. E digo que o roteiro encerra-se em si mesmo porque tudo, nele, nos seus mínimos detalhes e para quem souber ver (eu, na minha imperfeição, aprendi a ver coisas que outros olhos usualmente não vêem), contém citações e paródias e sátiras e homenagens ao cinema no seu inicio. E no fascínio que, na época, exercia nas pessoas que ainda tinham os olhos puros. Depois é que os olhos apodrecem, mas no inicio eles sempre costumam ser puros. Deve ser o CAZUZA cantando Solidão Que Nada, aqui, que me inspira. Dele, é uma das minhas preferidas.

No cinema também foi assim, no inicio.

O filme é francês mas é - na minha opinião - uma jogada bem bolada dos franceses para causar sucesso nos Estados Unidos. Como ele NÃO TEM LINGUAGEM FALADA (é mudo em 98% do seu tempo, você só ouve os personagens falarem alguma coisa bem no final), desimporta se são franceses ou americanos os seus personagens. Se fossem japoneses ou vietnamitas seria igual. Eles "falam" a linguagem corporal do glamour cinematográfico norte-americano que, em verdade, tornou-se indiscutivelmente universal por influência dos gringos.

Agora CAETANO VELOSO canta, aqui, Cry Me a River e eu quase esqueço que ele é brasileiro e baiano e me transporto, também, aos Estados Unidos. Pra se ver como há linguagens universais, ainda que partam dos até hoje imperialistas (É um termo ultrapassado? Não acho e uso.) americanos, capazes de produzir no cinema atual tanta porcaria.

A história, em si, é pueril. E nossos (ou meus, que ando a caminho dos 50 anos) pais devem tê-la visto inúmeras vezes, no passado.

Primeiro, o bigode do protagonista. Eu já usei bigode nos Anos 80, por influência do padrinho da Lívia, meu amigo há mais de trinta anos anos, que também usava. Eu achava bacana e copiei. Então andávamos os dois, de bigode (mais grosso, na modalidade "bigode de escovar penico"), com vinte e poucos anos,  pra cima e pra baixo. O meu era preto e o dele, loiro. Hoje mesmo ainda almoçamos os dois no Shopping e não temos mais bigode. Pelo menos ainda tenho cabelo e isso não tem hora pra acabar. O dele está indo embora.

O filme é a vida do artista de cinema, um astro idolatrado, que tem um bigodinho fino "de carroceiro", como se dizia na minha época. Provavelmente os carroceiros da minha época ainda usavam o bigode à moda do cinema das suas épocas. E essa vida do artista vai, no filme, do auge à decadência.

Meio estereotipadamente (e a vida é um estereótipo, de verdade), a menina bem mais jovem (e pobre, e figurante) que é fã do artista, depois, vira uma atriz de primeira grandeza e ofusca o talento e a carreira do velho ídolo. Na mesma proporção da ascensão dela, vai a derrocada dele. Paciência, é a ordem natural das coisas.

Ele, que se acostumou a fazer filmes mudos, desdenha e por orgulho se recusa a fazer filmes "falados". Rejeita aquilo que o Diretor chama de "o futuro" (os filmes com som).

Ela, mesmo na distância dele e na sua riqueza, tenta "cuidar" dele, que está descendo a lomba da vida em velocidade acentuada. É até comovente não o drama dele, mas a proposital ingenuidade da história. Fomos ingênuos, um dia, na Humanidade. E a história mostra o que significa a glória e o esplendor, e também o que significa a miséria (o sujeito com uma garrafa de uísque barato, o cachorro ao lado por único companheiro).

Acostume os seus olhos. O que começa lírico, com a longa-metragem do filme acaba tornando-se cansativo. Não estamos acostumados com filmes mudos. O ARTISTA não é COMPLETAMENTE MUDO, há legendas sobre o que eles (os atores) estão falando, quando movem os lábios. Mas é um retrato fiel daquilo que se vê num filme como aqueles do Charlie Chaplin, por exemplo.

Com o passar do filme, do meio para o fim, você começa a ficar IMPACIENTE (ou EU, impaciente por natureza, comecei a ficar) com aquela musiquinha da trilha tocada o tempo todo, sem a voz dos "artistas". E também não tem um único beijinho entre o par romântico do filme.

Mas isso não apaga o brilho e nem a boa "sacada" dos franceses que fizeram o filme. Enchendo ele de atores americanos, aliás. Para garantir a homenagem e o destaque. O filme só tem acumulado PRÊMIOS, desde então. A cena da dança, no final, é um primor. E "primor" é uma palavra usada só por velhos.

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