AINDA BRASÍLIA.
(Ambiente: cerveja Brahma Extra, música de Ingrid Michaelson. Optei pelo ar condicionado, portanto sem charuto).
Ainda sob a influência e o clima de Brasília. Pouca gente gosta de lá. Eu gosto e muito. E neste ano se completam quinze anos que eu viajo para lá todos os anos, às vezes mais do que uma vez por ano; sempre a trabalho. Comecei cedo, em 2012. No dia 04 de janeiro já estava lá. Pretendo ir a turismo, uma hora dessas. Sempre que digo que vou fazer isso alguém me pergunta "o que você vai fazer justo em Brasília?". Não tem praia (dizem que há lindas cachoeiras no entorno da Cidade), a maior parte da paisagem é urbana. Não sei dizer porque gosto, mas o fato é que gosto.
Desconfio, mas não tenho certeza, de que se trata dos grandes espaços vazios. Sempre gostei de espaços grandes, amplos, desde pequeno. Pegava a minha bicicleta e ia para algum lugar, sozinho, e ficava parado, olhando para o nada e pensando em um pouco de cada coisa.
Também porque sou um animal urbano, e a arquitetura e os lugares de lá (inclusive os shopping) me agradam bastante. O clima é bem seco, e tem gente que tem sérios problemas de respiração e de secura na pele (rachaduras nos lábios, principalmente) por causa disso. Eu nunca tive. Acho que acumulei umidade suficiente aqui em Porto Alegre, o que me deu uma reserva natural para enfrentar o problema.
Brasília é Cidade e é, ao mesmo tempo, um "mini-estado", o Distrito Federal. Por isso tem estruturas administrativas de Estado e também de Cidade. Além disso, a gente não nota, mas na verdade Brasília fica fisicamente dentro do Estado de Goiás. Ou seja, ela efetivamente ESTÁ em Goiás, embora nem em sonho os seus habitantes desejem ser chamados de "goianos". Não querem e não gostam. Goiania fica a 250 km dali, é certo, mas outras Cidades de Goiás e também do Sertão de Minas Gerais ficam mais próximas.
Há muitos anos atrás já havia dirigido em Brasília, mas daquela vez acompanhado. Agora dirigi sozinho. E ainda à noite, o que piorou o quadro. Dirigir um carro por lá é o mesmo que jogar BATALHA NAVAL, com coordenadas do tipo "W3", "SQ SUL" e por aí afora. É difícil explicar, para quem nunca esteve lá.
Não há ruas com nomes próprios. E tampouco há esquinas. E há grandes; muito grandes e espaçosas avenidas. E, não havendo esquinas, nem pense em guiar-se por um endereço do tipo "Rua Marechal Floriano, esquina com Rua da República". Isso não existe, por lá. O que se tem são "coordenadas" e não exatamente endereços. Concentrando-me unicamente no chamado "Plano Piloto", que é o traçado original do (grande e único!) OSCAR NIEMEYER e de Lucio Costa, o que existe é um "avião" (a foto pequena acima, que fica ampliada se você clicar nela, é uma mostra de parte disso). Há o Eixo Monumental (o corpo do avião; dizem que no Guiness Book por ser a mais larga avenida do Mundo!) e as duas Asas: Norte e Sul. No Plano Piloto, que seria o "Centro" de Brasília (ignorados os bairros novos e as cidades-satélite) é que eu me hospedo e me movimento, entre os Tribunais e a Justiça onde trabalho e os lugares nos quais também passeio.
Aqui em Porto Alegre, onde vivo desde que nasci, ou em outras cidades "comuns" (ou não planejadas) e com endereços e pontos de referência, já sou um desastre da orientação geográfica. Me perco, erro o caminho, entro na contramão. A minha mente não foi elaborada para lidar com coisas que não me interessam. Ela é completamente seletiva. E saber aonde dobrar uma esquina; a numeração da rua, qual a preferencial ou quantos metros e quilometros há entre um ponto e outro não são coisas que despertem o meu interesse. É como saber nome, time e posição de jogador de futebol. Simplesmente não perco o meu tempo e nem os meus preciosos e privilegiados neurônios com merdas desse tipo.
Em Brasília, essa desorientação aumenta. Deus sabe que eu, ao volante de um Novo Uno zero quilômetro (locado), tentei chegar ao Shopping Iguatemi de Brasília (o mais novo de lá, com dois anos de inauguração), mas simplesmente não consegui. Contentei-me com o Brasília Shopping, que ficava a poucas quadras do Hotel mas ao qual, assim mesmo, demorei a chegar, por causa dessas voltas todas da Cidade. Devo ter dado umas três voltas em torno do Shopping até conseguir entrar no estacionamento (!!) dele, feito uma mosca varejeira ao redor de uma maçã podre.
Você não entende, se não estiver lá. Se você quiser ir até aquele prédio que enxerga daqui da janela, precisa dar um montão de voltas, todas elas EM CURVA, porque não há esquinas. Há passagens de nível e vias acessórias. É perto, mas se quiser ir CAMINHANDO, não há (caso seja dia) sombras ou distração. Você vai caminhando na olheira do sol (e bota sol nisso!), em campo aberto, no meio da avenida. E as pessoas nos carros te olham como se você tivesse acabado de fugir do hospício ou da Papuda (o Presídio local). Ninguém anda a pé. Eu já andei, claro, e de terno e gravata, em outras épocas em que não sabia disso, suando feito um camelo.
Desta vez, de carro, fui até o Lago Sul sem querer (onde ficam as mansões dos Senadores e Deputados e outros ricos), passei por uma ponte sobre o imenso Lago e não conseguia mais voltar; não havia retorno. Um dos retornos que fiz, foi na base do "morador de cidade não-planejada": esperei não vir carro algum e dei volta na própria avenida, voltando em sentido contrário. Lá pouca gente faz isso. Eles vão educadamente até o local de retornar e retornam.
Como o meu carro tinha placa de Belo Horizonte, numa hora dessas de desespero eu estava num sinal, esperando abrir, quando encostou ao meu lado outro carro também de Belo Horizonte. Um casal e a sua provável filha no banco de trás, ironicamente, e provavelmente pensando que eu fosse conterrâneo deles, queriam informações, justo DE MIM, que estava tão ou mais perdido. Quando consegui ENCONTRAR a maçaneta do vidro do meu carro, tudo o que me lembro de ter dito foi "este carro não é meu, não sou daqui, estou pior do que vocês". A mulher olhou-me com um misto de decepção e de piedade, como se eu tivesse dito a ela que ia me suicidar. Talvez a minha cara dissesse isso.
Naquela noite, após abandonar a idéia de ir ao Iguatemi e me satisfazer com o Brasília Shopping (quase fechando), jantei no Zack´s (http://www.zacks.com.br/?pid=restaurante_df) fast food legal e temático (música e cinema antigos) aonde gosto de ir alternativamente ao Carpe Diem (http://vejabrasil.abril.com.br/brasilia/restaurantes/carpe-diem-30195); esse último vou há muitos anos. Chegando ao hotel, joguei a chave do carro ao manobrista e não quis mais saber de dirigir naquela noite.
No outro dia, à luz do sol (ou da chuva, porque desabou um toró), acabei indo ao Iguatemi. O Iguatemi de Brasília, que eu não conhecia, é dedicado à alta classe de uma Cidade cujo custo de vida, por si só, já é altíssimo. Um dos metros quadrados mais caros DO MUNDO está em Brasília, por causa dessa gente gastadeira. E A Cidade, apesar disso, está sempre em construção (fotos abaixo, resultado de uma caminhada de apenas duas quadras). Às nossas custas, aliás.
Segundo me contou um motorista de táxi de lá (e lá cada motorista é de um Estado, geralmente do Nordeste), uma "moça que faz pesquisas" e que pegou o táxi dele certa vez, disse-lhe que o público principal do Iguatemi-Brasília são as amantes (putas ou não) dos políticos.
As lojas são de grandes griffes mundiais. Uma calça jeans na vitrine da Ermenegildo Zegna custa R$ 700,00. Há também uma loja dos cobiçados calçados femininos Christian Laboutin. O meu charuto Fonseca cubano, que aqui em Porto Alegre custa relativamente barato, num quiosque que fica no corredor do Shopping custa O DOBRO daqui. Não dá pra ser feliz.
Terminei a tarde de sexta comendo um pedaço de bolo de chocolate (amargo) no quiosque que tem o modesto nome de O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo (http://www.iguatemibrasilia.com.br/lojas/loja-570.shtm). Não é tudo o que dizem.
Depois disso, estava na hora de voltar ao escritório e, de lá, ao Aeroporto.










0 comentários:
Postar um comentário