FILME SITUADO NO CONTEXTO POLÍTICO DA CAMPANHA AMERICANA QUE NOS INTERESSA MAIS PELO AGIR HUMANO DOS SEUS PERSONAGENS, DO QUE PELA CAMPANHA POLÍTICA PROPRIAMENTE DITA: TUDO PELO PODER (filme de cinema)

(Ambiente: cerveja Heineken e músicas diversas, começando a escrever com Caetano cantando Cry Me a River, em inglês. Essa música é de Arthur Hamilton e foi escrita originalmente para Ella Fitzgerald cantar!)

Pelo jeito vou trabalhar até o último dia "comercial" do ano, que é na sexta-feira. Hoje tenho trabalho e acaba de me chegar mais um, com a recomendação expressa, óbvio, que o prazo de entrega é AMANHÃ. Se tudo correr bem, pretendo comprar um charuto até amanhã; prazer que andei abandonando nos últimos tempos. E não é por ideologia anti-tabagista, mas por falta de tempo de ir comprá-los no lugar certo (lá na Avenida Farrapos). E tamvém por certa racionalidade financeira. Andamos gastando muito em tecnologia nos últimos tempos por aqui (o que significa investir em condições de trabalho) e não posso deixar de pensar que cada charuto cubano "queimado" equivale a uma camiseta Hering básica (que uso, direto) ou a vários litros de leite. Eu tinha um amigo que calculava tudo assim: em litros de leite. Do dinheiro gasto por alguém com gasolina; aparelhos eletrônicos ou com putas, para tudo ele comparava, com espanto (ou indignado): "isso equivale a X litros de leite!".

O filme TUDO PELO PODER (The Ides of March, ou "os idos de março") é, segundo os seus críticos (para o bem e para o mal, pois há críticas ao filme nos dois sentidos), uma alusão à campanha de Barack Obama, embora o candidato no filme seja um homem branco. Em todo o caso, o senador fictício que "colabora" com o candidato é um negro como Obama.

Segundo os críticos de cinema, essa alusão está clara no poster do candidato Morris (do filme) que lembra o trabalho do artista plástico Shepard Fairey, que criou em 2008 o célebre cartaz "Hope" para a campanha de Obama. Também falam, os críticos, que a DECEPÇÃO com o Governo Obama dá o tom do filme.

Esse é o quarto filme  dirigido e interpretado pelo impagável GEORGE CLOONEY, ídolo do quarentões (eu sou fã assumido dele, tanto pela sua beleza física quanto pela sua inteligência) e das quarentonas. Em breve Clooney vai "passar para o lado de lá" e será um "cinquentão". O roteiro também é do Clooney com a ajudinha preciosa do autor da peça de teatro na qual o filme é inspirado.

E o filme é inspirado na peça Farragut North, de Beau Willimon. O filme se passa em Des Moines, Iowa, algumas semanas antes de o Partido Democrata, o mesmo de Obama, escolher seu candidato para concorrer à presidência dos Estados Unidos. Farragut North é o nome da estação de metrô que dá na região dos escritórios de advocacia e consultoria onde trabalham os lobistas mais influentes de Washington.

O filme, sou obrigado a reconhecer, começa chato. Não exatamente chato, mas intransponível, porque faz alusões a "regiões eleitorais" que não nos dizem respeito, e a particularidades eminentemente americanas. Não entendemos direito quando eles falam nos "Delegados de Ohio" ou nos eleitores da Carolina do Norte como se tivéssemos a obrigação de entender isso. É como se eles tivessem de entender as diferenças e peculiaridades entre os eleitores do Sul e os do Nordeste do Brasil ou algo assim.

A história centra-se na figura do diretor de comunicação Stephen Myers (RYAN GOSLING, tantas vezes mencionado aqui neste blog - ultimamente em Driver - jovem ator que é o novo ídolo das americanas), que faz a campanha para que o Governador Mike Morris vença as eleições primárias. Na verdade o filme explora, até a última cena do filme (talvez aquela que justamente nos sugira que o jogo vai virar), a ambiguidade do próprio Myers, que tanto quer tirar proveito quanto se decepciona com o jogo político e as revelações íntimas que surgem no meio da campanha. No final do filme esse idealismo de Myers desmorona.

Se no inicio o filme é, como eu já disse, intransponível e "político-americano demais" para o nosso gosto tupiniquim, depois o que passa a contar são as interpretações das torpezas, medos e vilanias humanas. E QUE INTERPRETAÇÕES, minha Nossa Senhora de Brasília!

Temos, além dos já citados Clooney e Gosling, um time de deixar quem gosta de cinema caído de quatro, feito um jumento. E não tenho a menor dúvida de que a habitual e ácida crítica de Clooney ao Governo Americano (e à situação política do Mundo, de um modo geral) serviu para que ele usasse a sua imensa influência e convidasse esse elenco de peso, provavelmente não pagando muito dinheiro a eles.

Temos a estagiária ("adolescente", para os padrões americanos ditos no filme, com 20 anos de idade) que trabalha no comitê de Morris e que se envolve com Myers e que, se verá depois, também anda envolvida com o próprio Governador. Ela é feita (primeira foto, abaixo) por EVAN RACHEL WOOD.

Depois, temos a inominável MARISA TOMEI, estrela da minha geração (segunda foto, abaixo),  que deixa de lado sua versão "coroa em forma" (bem em forma, diga-se) dos últimos filmes e assume o papel de uma jornalista judia desleixada com a própria aparência, mas implacável nos seus métodos de investigação jornalística.

Além dela, o careca e barrigudo PAUL GIAMATTI com suas caras e bocas e o seu papel (sempre bem feito, sem fotos aqui) de "revoltado traiçoeiro" que usualmente faz nos filmes. Ou seja, é aquele cara que é vingativo e mau mas que não explode, age nas sombras. Esses, nos filmes ou na vida real, são os piores, porque eles não têm coragem de te xingar frente a frente e normalmente são tímidos. Agem sempre na traição e na covardia. Não gosto de gente assim, parecem lagartixas geladas e sem personalidade. Prefiro quem me manda tomar no cu, direto, do que quem me aperta a mão e por detrás fale mal de mim ou "tome providências" malignas contra mim.

Por fim, além do próprio Clooney (hipócrita, comedido, excelente), temos o gordinho PHILIP SEYMOUR-HOFFMANN  (duas fotos, abaixo), garantia segura de um bom filme, seja no papel de um abobado sem-noção, seja no papel de um lobista velho e malandro, como é o que faz nesse caso. Os diálogos desse cara, e o riso irônico com os olhinhos apertados,  são um orgasmo teatral.




Dizem os críticos na Internet que o Diretor Clooney apelou para o fatalismo fácil, quando todo mundo já sabe que campanhas políticas são sempre assim. Mas, independente disso e do mérito do filme,  as interpretações desses grandes atores daquilo que seja a vilania humana são um espetáculo que vale uma ida até ao cinema, embora eu o tenha visto em casa.

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