DRAMA E ROMANCE GAY CHINÊS NA ARGENTINA, COM FELIZES JUNTOS, O PRIMEIRO FILME DA TRILOGIA DO DIRETOR CHINÊS WONG KAR-WAI (filme em DVD).

Já comentei aqui, recentemente, dois dos melhores filmes a que já assisti e os comentei atrasados, porque não os assisti na época em que foram lançados. Ambos chineses e do mesmo Diretor Wong Kar-Wai.

O primeiro deles (e para mim o melhor de todos) foi AMOR À FLOR DA PELE, que é do ano 2000. O segundo foi 2046 - SEGREDOS DO AMOR, que é de 2004. Faltava FELIZES JUNTOS, que é o primeiro da série e foi feito no ano de 1997.

Kar-Wai não considera os três filmes como uma trilogia. Talvez o ator LESLIE CHEUNG, que é o personagem central nos três filmes, o considere. Concordo com o Diretor, não é uma trilogia. Especialmente porque desta vez o personagem de Cheung é gay.

O filme FELIZES JUNTOS é um romance gay, ao passo que os outros tratavam do intenso romance entre homem e mulher.

Mesmo admitindo que o romance gay sempre causa, no homem que o assiste, algum estranhamento, considero que já superei essa fase na vida em relação aos filmes (só em relação aos filmes, deixando bem claro...). Admito - sem qualquer problema -assistir a um filme desses, desde que tenha um enredo interessante, como em qualquer filme.

Nesse caso, não consegui me prender muito à trama. O filme tem umas idéias bacanas e o Diretor chinês, em todos os seus filmes, manifesta um vivo interesse pela latinidade. Nos filmes anteriores, a trilha era a música cubana e os boleros, o que não é comum num filme oriental feito por orientais.

Desta vez, o inusitado da situação é o fato de FELIZES JUNTOS ter sido rodado na Argentina, o que para os chineses é do outro lado do mundo.

A história gira em torno de um casal de homossexuais, Yui-fai (Tony Leung Chiu-Wai) e Po-wing (Leslie Cheung), que viajam de Hong Kong a Buenos Aires atrás das Cataratas do Iguaçu. Eles se perdem no caminho e voltam para Buenos Aires. Essa viagem já começa a deteriorar a relação entre os dois que, como indica o filme, já era marcada pela passionalidade, pelas explosões. E do eterno recomeço. Brigas seguidas de reconciliação.

Nesse aspecto, obviamente, o título é uma ironia. Tudo o que eles NÃO SÃO é FELIZES JUNTOS.

Po-Wing, mais centrado, consegue um emprego em uma casa de tangos guiando turistas chineses por Buenos Aires, enquanto Yui-fai se prostitui.

Falando em tangos, aliás, o filme é embalado por ASTOR PIAZZOLLA. E também por mais música dita "latina". O estranho é ver dois homens dançando tango. Pelo jeito, na Argentina há bares gay onde os rapazes dançam esse ritmo, pois além dos personagens principais há um outro homem dançando tango com um deles.

Para minha surpresa, lá também está CAETANO VELOSO cantando (em espanhol) Cucurrucucu Paloma música que, mais tarde (5 anos depois), cantaria no filme FALE COM ELA, de Almodóvar, conforme já foi comentado aqui. Só que em FELIZES JUNTOS Caetano não aparece, apenas a sua música.

Entre tantas brigas, o casal se separa e Po-Wing começa a se relacionar com outros homens. Um dia, Yui (o mais rebelde, ou desajustado) aparece todo arrebentado por um dos seus clientes e Po-Wing aceita dar guarida ao ex-amante, desde que não haja mais nada (físico ou afetivo) entre eles. E assim acontece.

Um ponto de forte interesse no filme (além da fotografia, da música e das locações na Argentina) é a exploração da SOLIDÃO dos personagens, independente da sexualidade deles; solidão essa que é demonstrada de forma pungente e dá uma idéia de abandono permanente. Como se todos atuassem sempre sozinhos, cada qual nas suas vidas. E isso não decorre da opção sexual dos personagens, mas da opção afetiva. Se fossem um casal heterossexual o mesmo se daria.

Um dia, trabalhando como cozinheiro, Po-Wing um heterossexual tímido e introvertido, Chang. Há uma sugestão forte de envolvimento entre ambos, pois parece que Chang está prestes a assumir-se como gay, mas não tem coragem. E já adianto que até o final do filme ficamos nessa expectativa. Eles ficam, por assim dizer, muito próximos. Mas sempre ficamos na dúvida.

Chang é oriental mas não é chinês, é de Taipei. No dia em que Chang resolve voltar para a sua casa, o próprio Po-Wing percebe o quanto também sente falta da segurança da China, por ser o seu País natal, e da falta que sente do pai, e das suas coisas. Ele já não tem muita coisa que o prenda à Argentina.

O Diretor é competente e algumas cenas (alternando preto e branco e cor) são bonitas. Mas acho que poderia aproveitar a Argentina, e o tango, e a sua "orientalidade", e fazer algo mais bem costurado, intenso. Assim mesmo, ganhou prêmio, em Cannes, em 1997.

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